sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Pode ser mais simples
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Provocação ou ignorância ?
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Velhos Amigos
- Voce está de óculos ! disse ela, ainda acordando, entre uma tosse e outra.
- Já faz 25 anos...
- Você está diferente.
- Diferente, voce quer dizer velho e fraco ? levantando forte o braço dela.
- Nao, sua pegada ainda está boa, ainda que não tão animada quanto da última vez. Voce está, sei lá... meio professor. Pera lá, voce falou 25 anos ?? Onde estive todo este tempo ?
- No começo, na casa dos meus pais. Depois que ele ameaçou jogar você fora, te trouxe para Londrina. E percebendo que dormira por 25 anos, ela tossiu mais ainda.
Então é por isso que o capim está mais macio que aquele capim gordura de Mogi das Cruzes ?
É, aqui é assim, a terra é mais vermelha e o capim bem mais macio...
- E aquela que veio te chamar com o bebezinho no colo ? Meu Deus, voce tem um filho !! E morreu.
Na próxima arrancada ela veio de novo;
- Agora enfim nós vamos ter uma horta e um pomar orgânico e vamos cortar um mundo de capim para fazer composto ?
- Voce pegou a idéia. É exatamente isto, só que uma versão melhorada, 25 anos depois.
- Mas por que voce me largou por todo este tempo ?
- Uai, para fazer tudo isto que você está vendo, professor, terreno, casa terminando, filho etc disse eu orgulhoso.
- E esta gasolina com gosto de caipirinha, você misturou álcool? Continua o mesmo pão duro de sempre...
- É que agora toda gasolina é assim.
- Para que raios os humanos colocam álcool no combustível das pobres roçadeiras ?
- O combustível feito a partir de uma planta não lança carbono novo na atmos..
- Mas isto ainda tá assim ? Disse a velha senhora nipônica de 40 anos de idade (cada ano humano equivale a dois para as roçadeiras).
- E ficou ainda muito pior. Agüenta a gasolina com álcool que é por uma boa causa.
- Ops, uma jurubeba no meio do mato, deixa ela aí para os passarinhos. Disse eu, lembrando a amiga dos velhos hábitos.
- Pelo menos alguma coisa não mudou... Mas por que estamos deixando tanto capim nas touceiras, deste jeito na semana que vem já está grande de novo.
É para isto mesmo. Amanhã eu vou empilhar tudo isto para compostar e logo estaremos aqui de novo.
Escuta, e o codigo florestal como anda, aquele deputado moto serra já morreu ?
Olha, voce não vai querer saber sobre isto...
E assim começamos a cortar mato de um lado do terreno para fazer composto e acabar com o gramado do outro lado. Como isto vai se desdobrar em muitas outras histórias de compostagem de fraldas, covas, mudas, tratamento de esgoto e coleta de água da chuva, vamos começar um blog separado para não transformar nossa histórica coluna Ambiente por Inteiro em um Histórias da Chácara II, o que seria plágio do querido Domingos Pelegrini. Aguardem as novidades.sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
COP: Perda de tempo
Veja minha coluna http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/2010/12/cop-soberba-e-preguica_02.html de exatos 365 dias atrás. Agora já são 17 reuniões sem nenhum resultado, tem até um gráfico interessante lá. Igualzinho, há um ano tentávamos fazer bonito lá fora enquanto ameaçamos anistiar desmatadores cá dentro.
A jornalista Afra Balazina está maldizendo Durban, COP e a ONU em seu facebook. Os que imaginam que falo mal por inveja de não estar em Durban, ESTÃO ABSOLUTAMENTE CERTOS ! Adoraria estar lá aprendendo em meio a ministros do ambiente e autoridades do mundo todo, mas isto não mudaria a falta de rumo do clima.
Adorei a pergunta do agudo repórter do Spiegel ao ministro alemão do ambiente:
- Vale a pena viajar até Durban ?
Ao que o ministro respondeu que este é nosso único fórum de discussão ambiental. Concordo. No entanto, “único” é diferente de “efetivo”, que é também diferente de ao menos valer o impacto ambiental causado.
Há até boas notícias vindas de Durban, como o novo imposto sobre carbono na Austrália
Já notou que as boas notícias ambientais vêm sempre de dentro dos países ?
Os países (ao menos os melhorzinhos) tem polícia e poder judiciário para ameaçar quem não cumpre a lei. Não existe poder de polícia para países que não cumprem acordos. Neste momento não existe nem acordo. Imagine um grupo de adolescentes sozinhos em uma ilha. Eles se viram sozinhos, formam gangues, talvez até façam mal uns aos outros. Quando eles concordarão em algumas regras básicas de convívio ? Quando amadurecerem, talvez. Os países talvez não amadureçam nunca, porque sua própria existência é errada.
Quando a terra era o bem mais importante, escolhemos o caminho de separar as pessoas em função dela. Se você nasceu ao norte do Rio Grande é norte-americano. Se nasceu ao sul é mexicano. Como a terra não é mais um bem tão valioso, talvez fosse o tempo de acabar com os países.
É uma boa idéia que não acontecerá porque sempre haverá um estoque interminável de doentes mentais querendo trocar seu limitado tempo de vida pelo poder.
Da mesma forma (e descendo ao universo de propostas factíveis) as reuniões da COP poderiam ser em vídeo conferência, com cada delegado em seu próprio país de origem falando em um anfiteatro com seus conterrâneos. Ganhariam representatividade e também grandes platéias se educariam sobre o funcionamento (e talvez também sobre o mau cheiro exalado) dos acordos internacionais.
Mas talvez também esta proposta não se torne realidade porque é muito mais chique dizer “Na última reunião da COP que fui, em...”
A composteira na varanda de meu apartamento faz mais bem para o mundo que a COP (e possivelmente menos mal para a Afra Balazina também).
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Código que ninguém entende
Não há nada mais o que falar sobre o Código Florestal. A ciência já se pronunciou sobre o problema da limitação de terras para produção agrícola. Não usamos nem a terra disponível. O cidadão saudável pode constatar com seus olhos em qualquer voltinha pela zona rural e os mais detalhistas podem ver os números aqui.
O mundo quer produtos mais saudáveis (assim como queria o fim do escravagismo no século 19), mas alguns produtores rurais –não todos, felizmente, ainda querem colher e vender hoje os recursos naturais de ontem e amanhã. A produção rural em oposição ao ambiente é uma jaboticaba criada pelos bisnetos dos senhores de escravos.
Ontem demos um importante passo aprovando as alterações do Código Florestal na Comissão de Meio Ambiente do Senado. Importante passo atrás, liberando geral para quem fez errado entre 1965 e 2008 e ainda criando a dificuldade de termos que demonstrar os desmatamentos anteriores a 2008. A Comissão de Meio Ambiente dividiu as APP ao meio, além de mudar a referência do ponto máximo das cheias para o nível médio. O “novo” Código só tem nova mesmo a idade. Em sua concepção, ele é cheio de reentrâncias e saliências para abrir rotas jurídicas de fuga para desmatadores, bem ao gosto da leis mais antigas.
E falando em Comissão de Meio Ambiente do Senado, não será fácil descobrir sua composição. Precisei ligar para conseguir o nome dos 16 Senadores que aprovaram isto. Houve um único voto contra, do Senador Randolfe Rodrigues. Entre os que votaram a favor, grandes proprietários de terras como Assis Gurgacz e Blairo Maggi (este como suplente e proponente de emendas).
Perceberam, aliás, como os ruralistas têm estado quietos recentemente ? Faz algum tempo que não recebo mensagens furiosas. Talvez um pouco de história recente explique o silêncio. Há exatos seis meses a Folha de São Paulo publicou “Dilma irrita-se com Código Florestal e promete veto”. Ontem, enquanto a Comissão de Ambiente aprovava o trem ruralista da alegria, a presidente discursava no Seminário de Comemoração de 60 anos da entidade e entoava os mantras ruralistas. O Brasil depende da agricultura, etc. Algo mudou nos bastidores (se é que já não esteve sempre assim).
Precisamos passar a tratar nossos produtores rurais como empresários de verdade. Precisamos levar a sério taxações, empréstimos, regulações ambientais e trabalhistas, como seus colegas industriais e comerciários já fazem há décadas. A agricultura é muito importante para ser mantida na forma de sesmarias.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Gramados
No tempo em que a terra era a única forma de riqueza, somente os muito muito ricos podiam dar-se ao luxo de ostentar uma terra usada para nada: o gramado. Nascido na nobreza inglesa em tempos feudais e trazido para os Estados Unidos ainda em tempos coloniais, os gramados tiveram enorme expansão nos anos 50, junto com as casas suburbanas. Encontrei uma estimativa da NASA que os gramados cobrem uma área três vezes superior a qualquer cultura irrigada nos EUA. Parece não haver estimativas com área com grama no Brasil.
Felizmente nossos gramados são tratados com menos obsessão que os norte-americanos, nos quais a quantidade de irrigação, agrotóxicos, fertilizantes e combustíveis fósseis consome quantidade de energia comparável com a cultura do milho, mas qual milionário quereria ter um milharal na frente de sua mansão ?
Conforme se cria uma classe média urbana nas cidades de médio porte brasileiras, estamos nos mudando para os subúrbios tal qual fizeram nossos irmãos do norte há meio século. Se é para seguir os passos alheios, devemos ao menos escolhê-los. Thomas Jefferson, por exemplo, propunha no século 18 uma nação feita por pequenas propriedades rurais independentes e autônomos ?
Os tataranetos dos donos de engenho acham feio cuidar do roçado, mas bonito cuidar dos arredores da casa grande. Cortar a grama é coisa de rico, cuidar de horta é para pobre. No entanto, somente quem semeou, regou e colheu pode ter absoluta certeza que comeu um produto orgânico.
Plantar oferece a colheita e cuidar do gramado oferece ostentação. A escolha é sua.
E esta escolha parece ter pouco a ver com estudo. Donos de gramado com mais estudo consomem mais agrotóxico em seus gramados, assim como aqueles que ganham mais, ou são mais velhos. Todas estas pessoas, em tese, deveriam estar menos interessadas em ostentar e mais em alimentar-se bem.
Há uma enorme fronteira agrícola a ser explorada dentro das cidades. Ela pode melhorar a qualidade de nossos alimentos, reduzir os custos ambientais com transporte e aumentar o uso de resíduos como fertilizantes para estes cultivos urbanos.
Assim como em todas outras causas e coisas ambientais, o exemplo é mais importante que a conversa. (E por falar em exemplo, a fazenda Monticello, de Thomas Jefferson, possui enorme área de gramado ao redor da sede). No mês passado iniciei a destruição de 2800m2 de gramado, para ver na prática quanta comida uma área pequena como esta pode produzir para uma família. Vocês lerão ainda muitas colunas sobre a “Fazenda Petrópolis”.
Algumas referencias interessantes para quem gostou do assunto:
Falk JH 1976 Energetics of a Suburban Lawn Ecosystem. Ecology 57:141-50
Milesi et al A STRATEGY FOR MAPPING AND MODELING THE ECOLOGICAL EFFECTS OF US LAWNS http://www.isprs.org/proceedings/XXXVI/8-W27/milesi.pdf
Robbins et al 2001 Lawns and toxins; An Ecology of the City Cities 18:369-80
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
A última mulher
Desde a publicação de Baker em 2011, que as sessões de terapia gênica para inibir os efeitos da proteína P16 ink4A viabilizaram a imortalidade. Sendo poucos os que podem pagar, o resto da população segue sua tendência de redução. Macau e Hong Kong já não existem desde 2100. A radiação atômica de Fukushima acelerou o fim destas ilhas pequenas e pouco prolíficas.
A imortalidade pela via de ter filhos é também difícil. As únicas mulheres que ainda os têm são as imortais. As outras preferem gastar seu tempo livre nos centros de terapia aquisitiva. Por pressões ambientalistas, desde 2090 os centros de terapia aquisitiva passaram todos a ter programas de reciclagem associados, onde o cliente imediatamente deposita os objetos comprados, processando-os de maneira ambientalmente limpa e isenta de impactos, podendo assim retornar imediatamente ao Trabalho.
Trabalho é o nome da companhia que sobrou da Joint Venture da Apple com a Google, Volkswagen, Alcoa e Nike, depois que já terem comprado todas as outras e também os países, especialmente estes uma barganha. Com suas dívidas enormes, eles custaram pouco e permitiram também o ganho adicional de reduzir gastos com o fim dos Departamentos Jurídicos. Além de suprir os centros de terapia aquisitiva, o Trabalho também gera lucros para seus donos pagarem o tratamento de imortalidade.
O sistema, no entanto, possui uma falha. Os mortais, além de sua óbvia finitude, também não se reproduzem. Está definhando até mesmo o gigantesco lugar que já se chamou Brasil. Em breve nascerá sua última mulher. Daqui a pouco tempo nascerá também a última chinesa. O Trabalho vem automatizando processos, mas sempre acaba precisando de alguém para apertar os botões. Mesmo a recém inventada máquina de apertar botões também precisa de alguém para acioná-la.
Tudo isso ficou menos importante quando aproximou-se uma mortal querendo praticar uma ancestral arte esquecida já há séculos, tal qual a falcoaria e a contação de histórias. Parecia que ela queria conversar.
Quereria ela acesso às valiosas doses de P16 ink4A restrict, o valiosíssimo tratamento gênico que Epa controlava em seu laboratório ? Ou quereria ela, além de conversar, praticar a ainda mais antiga arte do sexo ? O que será que uma das últimas mulheres da Terra queria com ele ?
Em 2200 os seres humanos já se livraram até da morte (ao menos alguns), mas ainda não dos mais antigos dilemas gregos.
Em meu blog http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/ estão os links para o artigo publicado pelo Professor Baker na revista Nature sobre o controle da ação da proteína P16 ink4A , assim como para a estimativa de quando nascerá a última mulher em diversos países.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
O outro
Enquanto escrevo sua coluna da sexta, para mim ainda é quinta de manhã. Um dia daqueles que a gente se lembra para sempre.
Chova ou faça sol, colunistas têm que ter sua coluna pronta no prazo. Chamam deadline porque é a linha que voce morre se cruzá-la. Nesta quinta de manhã estou em um hospital aguardando um serzinho de oito meses fazer uma cirurgia no crânio. Sinceramente não vejo meio de produzir 2500 caracteres mais ou menos sensatos sobre ambiente, planeta ou congênere na deadline de muito logo mais.
Me ocorre agora as muitas vezes que falei mal de pessoas centradas no próprio umbigo enquanto o mundo desmorona. Desmatadores, fumantes, motoristas, mal-educados em geral, gente que joga lixo na rua, a lista é tão grande..., mas um tanto de individualismo me parece ótimo agora.
Quem sabe os altruístas se preocupam mais com os problemas do planeta somente porque têm menos problemas ?
Bombeiros, plantonistas de emergência e cirurgiões não costumam preocupar-se com os aspectos ambientais de seu trabalho. Aliás, espero muito que o cirurgião neste momento não esteja pensando no impacto ambiental de centros cirúrgicos.
Talvez haja muita gente por aí vivendo algum problema rotineiramente deste jeito e por isso não vejam muito sentido em coletar água da chuva ou compostar resíduos domésticos.
Sempre também falei mal, por exemplo, de gente que senta os filhos em balcões e mesas onde pessoas comem. Sempre me pareceu um recado do tipo “minha dor no braço é mais importante que sua higiene, sua saúde. Eis que ontem me peguei fazendo exatamente isto (mas logo me mudei para um canto). É meio egoísta mas o bebê fica próximo de você sem precisar segurar.
Muito mais do que a higiene terrestre, se alguém propusesse trocar o mundo inteiro, incluindo balcões, a capela sistina e a galinha pintadinha pelo serzinho de crânio aberto lá dentro, responderia... - Onde assina ?
É um paradoxo interessante trabalhar para um mundo melhor para nossos filhos e ao mesmo tempo dispor-se a trocá-lo por eles, mas por outro lado, que vale a própria vida sem um mundo para viver e descobrir ?
Depois de horas escrevendo o textinho meia boca desta semana, recebemos a notícia que tudo está bem.
- O que será que fazem com as fraldas no hospital ? Deixariam levar as fraldas sujas do meu serzinho para compostar em casa ?
Talvez o segredo dos ambientalistas seja enxergar seus próprios problemas menores que os do resto do mundo.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
7 bi não é problema
Nesta semana nascerá o 7.000.000o habitante da Terra. Vivemos o maior crescimento populacional da história da espécie humana. Para chegar ao primeiro bilhão levamos toda a idade da Terra, depois em 123 anos chegamos a dois bilhões e agora crescemos mais 1 bilhão em 11 anos.
Neste mês vimos artigos do tipo “Iremos alimentar 10 bilhões de pessoas ?” ou “Planeta sedento”. Estou pouco preocupado com a quantidade de gente. Até digo quanto. Estou 7% preocupado com toda esta gente no planeta. 7% das pessoas contribuem para a metade do carbono do planeta. 500 milhões de pessoas causam um estrago igual aos outros 6,5 bilhões.
Este grupo tipicamente se reproduz pouco no sentido biológico aliás, já devem até estar diminuindo, como o planeta também estará em poucas décadas. Culturalmente no entanto, estes 500 milhões são o objeto de desejo do resto do planeta e se reproduzem a dar inveja em Xeque Árabe. Todos queremos ter carro(s), casa(s) com gramado e trabalhar em um escritório de vidro (o último sem plural, é claro).
Até agora não vi um artigo do tipo “Como motorizar um bilhão de pessoas” (talvez porque seja tão possível fazer quanto subir para baixo ou entrar para fora). Se as pessoas comessem, dormissem, vestissem e produzissem os resíduos resultantes disto e somente disto, poderíamos manter 13 bilhões de pessoas com os custos ambientais atuais.
No ano passado, a consultoria Britânica Trucost produziu um relatório para as Nações Unidas que mostra que a cada ano, 3000 empresas causam 2,15 trilhões de danos ambientais, isto sem considerar possíveis colapsos futuros.
Escolha você o sonho demográfico. Zerar o crescimento populacional da África ? Cortar pela metade o do Afeganistão ? Nada disto mudará o planeta. Aliás, não é a redução da natalidade que melhora a vida das pessoas. É a melhoria de vida e principalmente a melhoria da cabeça das pessoas que reduz a natalidade. Os 500 milhões de afluentes estarão fritos no dia que os bolsões de pobreza do planeta melhorarem de vida porque o planeta não será mais o seu Jardim privado do Éden.
O crescimento populacional não é o cerne do problema porque nele o individual não briga com o coletivo. Menos filhos é bom para as famílias e para o planeta. O problema está quando é necessário cercear o indivíduo em prol do bem comum. Algum dos 400 milhões aceita dirigir um carro de duas portas com vidro de manivela ? Não. Este é um carro chamado de entrada, análoga à porta de entrada dos vícios químicos.
7 bilhões não são problema. O problema são os 7% de viciados em recursos naturais.
Veja o relatório da Consultoria Britânica trucost em
http://www.unpri.org/files/6728_ES_report_environmental_externalities.pdf
E um gráfico interessante da população mundial ao longo da história em
http://en.wikipedia.org/wiki/File:World_population_growth_%28lin-log_scale%29.png
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Semana do Saco Cheio
Perdoem a expressão chula que não mais repetirei, mas este é o nome da semana que inclui o dia do professor. Uma tradição criada em escolas privadas há duas décadas, que o pacto da mediocridade (o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende e o dono da escola finge que paga), dispersou por toda educação brasileira.
A educação traz a ética, o conhecimento teórico e a estética para as pessoas valorizarem o ambiente em que vivem. Conforme se educam, os horizontes das pessoas passam do sorvete para a casa para a rua, a cidade, o mundo. Quando educadas, as pessoas se preocupam com o planeta onde vivem.
A semana do supracitado repleto é o reconhecimento da falência do ensino. Ao invés de tornar a educação interessante, educadores assumem, ao lado dos alunos, que a educação é chata. Inclua todos aí na lista de chatos: professores, pedagogos e reitores. O prédio da escola também é chato.
Emendemos de uma vez o Carnaval ao Dia da Bandeira, e aprenderemos ao acaso, enquanto os professores vão fazer coisa mais útil de suas vidas, plantar batatas, por exemplo.
Os alunos estão gastando mais tempo tomando cerveja e conversando nos corredores do que envolvidos com o processo educativo, enquanto professores se viram como podem em outras atividades para fechar o orçamento. Esta cena pode parecer saída de um filme de ficção para os não educadores. Na verdade nós já emendamos o Carnaval ao Dia da Bandeira.
Recebi muitas mensagens pelo dia dos professores, uma mistura de auto-ajuda com novela mexicana. Pareciam ser sobre algum hobby. Profissão é acerca de vender o único pão que se dispõe, e se a remuneração está ruim, a profissão está ruim. Não há aula possível quando o professor traz uma placa no pescoço dizendo “Sou um otário que trabalha por um salário menor do que qualquer um de vocês irá ganhar quando sair daqui”. A regra é válida para professores do ciclo básico, secundário e universitário. Seus alunos recém-formados ganham mais do que eles. A menos, é claro, aqueles que resolvem seguir a profissão dos seus mestres. Estes ganharão uma placa novinha em folha.
Não se pode admirar intelectualmente alguém que vende sua força de trabalho a preço de banana. Sem admiração não há educação e sem educação não há ambiente sadio.
Na área ambiental, por exemplo, as ONGS já aprenderam que podem contar com a mão de obra barata de professores-doutores. Elas ainda têm o desplante de chamar de “consultores” os escravos que usam para avaliar projetos, dar cursos e escrever artigos. Nenhum demérito com a causa das ONGS, legítimas em sua maioria. As ONGS usam um instrumento de coação para contar com o trabalho escravo dos professores. Muitas delas têm grandes projetos em seu portfólio. Ao servir de mão de obra escrava, os ingênuos professores crêem que irão participar da divisão do bolo. Santa ingenuidade. As ONGS são “hippies” na hora de pagar, mas yuppies na hora de receber.
Veja sua rua, sua cidade e seu país. Nosso ambiente está assim porque nossa educação enche o saco.sexta-feira, 14 de outubro de 2011
No meio do furacão
A frase é meio exagerada, mas verdadeira – Criei-me no meio do furacão.
Sou Professor de Recursos Naturais para agrônomos há 20 anos. As coisas têm melhorado recentemente, mas sempre houve uma tensão inexplicável entre produtores e ambientalistas.
Já fui e voltei às profundezas do inferno de Dante atrás de entender porque ambientalistas, tão focados em nutrir plantas e bichos brigam com quem produz comida para gente e agricultores brigam com quem está preocupado com a sustentabilidade do seu negócio.
Ao longo dos anos a tensão tem diminuído na sala de aula, mas talvez até piorado fora dela, conforme a legislação ambiental vai saindo do papel. Por isso, fico entusiasmado quando vejo pontes sendo construídas. A palavra correta seria “emocionado”. Para mim é emocionante quando dois litigantes percebem uma solução conjunta para um problema.
Nos EUA, os incêndios florestais têm sido cada vez mais sérios pelas alterações climáticas e porque eles foram controlados nos anos 50 (a floresta de lá precisa ser queimada regularmente para evitar incêndios catastróficos para árvores e infra-estrutura). Eis que dois inimigos dos anos 90, um madeireiro (Dwaine Walker) e um ambientalista (Todd Shulke) resolveram unir forças para fazer uma exploração controlada da floresta, evitando os incêndios ao mesmo tempo que usam alguma madeira.
Já é complicado descobrir o aspecto técnico que favorece a construção da “ponte”, aquele lugar onde o rio é mais estreito. Muito mais complicado é conseguir que dois inimigos antigos percebam que estiveram enganados em sua rusga, e que sempre houve um caminho mais fácil.
Uma outra ponte é um artigo que saiu nesta semana na revista Nature :Solutions for a cultivated planet do qual vocês ouvirão falar muito. Jonathan Foley e mais um grande time de pesquisadores se debruçaram sobre dados globais e concluíram que para conseguirmos nutrir o bilhão de pessoas mal nutridas que ainda existe hoje e diminuir a demanda agrícola sobre os recursos naturais, precisamos parar de expandir a área agrícola, mas precisamos buscar nivelar a produção, que cria problemas por ser concentrada em algumas áreas e insuficiente em outras. Também precisamos buscar maior eficiência na agricultura e distribuição do alimento. Um componente importante disto é a mudança de nossa dieta. Você, que faz parte de uma elite que se informa lendo, faz também parte de um grupo para o qual a comida faz mais mal do que bem. Coma menos, com mais plantas e alimentos menos refinados e você fará em primeiro lugar bem para você, mas também para o resto do mundo.
Para evitar que alguém cite esta coluna indevidamente, deixo claro que em ecossistemas tropicais não é necessário fogo, porque temos chuvas constantes durante o ano e uma luxuriante microbiota que degrada a matéria orgânica.Veja aqui o pequeno filme sobre o madeireiro e o ambientalista que perceberam que estão do mesmo lado da briga
http://tvuol.uol.com.br/permalink/?view/id=ambientalista-e-madeireiro-se-unem-para-salvar-mata-nos-eua-04024D183172D4892326/mediaId=12159105/date=2011-10-08&&list/type=user/codProfile=1hjuf7gjt6ko/
E veja aqui o artigo de Jonathan Foley;
http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature10452.html
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Virar o jogo ou jogar a toalha
Esta é uma casa bem pequena:
http://tortoiseshellhome.com
Esta, em forma de domo consome seis dolares de energia elétrica por mes, produzindo o resto:
http://www.sciencefriday.com/videos/watch/10407
Este é o novo escritório da fundação Bullitt
http://www.millerhull.com/html/inprogress/cascadiacenter.htm
sábado, 1 de outubro de 2011
Como não enterrar sua árvore
Tem aquele clichê que todos deveriam escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. É pouco. Para realizar-se, uma pessoa deveria plantar uma muda que vire uma árvore, escrever um livro que não encalhe e criar um filho que não se drogue.
Deixo os filhos e livros para outros colunistas mais entendidos.
Para começo de conversa, tente mudar a estratégia de anos passados, que afinal parece não estar funcionando. Plante uma árvore só se não puder cuidar de uma já crescida.
Comece escolhendo a espécie. Já ouço seu pensamento dizendo que vai plantar a mudinha que o cumpadi lhe deu, que está no jeito.
Não vou perder meu tempo discutindo agora. Plante qualquer porcaria, e daqui a dez anos corte e plante outra. Quem sabe daqui a 50 anos você tenha acertado.
Talvez.
Conheça como sua árvore vai estar em cinco ou dez anos para saber se ela é compatível com o local onde vai ser plantada.
Se você quer que a sua árvore cresça, abra uma cova onde entre o seu braço, não a sua mão, e quanto pior a terra, maior a cova. Você não precisa abrir a cova de uma vez. Abra em dois ou três dias. Sem problema. Mas não coloque sua preciosa muda numa cova rasa. Você vai estar tratando sua muda como um defunto ruim, e não tenha dúvida, ela se tornará um.
Não é novidade que o melhor adubo de todos está no lixo das nossas cozinhas. Pegue as cascas e sobras de comida e vá jogando na sua cova. Cubra com um pouco de terra a cada leva que for jogando, para evitar moscas. A cada chuva que cair, este material orgânico é lavado e esta água desce ainda mais para baixo da sua cova, ampliando o benefício da sua adubação. Quando esta mistura de cascas e terra estiver chegando perto da superfície, termine de encher com terra, espere uns dois meses e aí coloque sua muda.
Irrigue bastante sua muda. Esta muda vai agüentar agora pleno sol, e até adaptar-se é melhor ter bastante água a disposição. A água também ajuda a chegar a terra perto do torrão da muda.
A causa mais freqüente de morte de árvores urbanas é depredação. Em alguns lugares, uma estaca só dá conta. Para lugares mais barra-pesada, precisa de uma cerca. Eu já vi até uma caixa fechada, só com a parte de cima aberta, de onde dava para ver a mudinha, coitada, lá no fundo, no escuro. Não é o melhor lugar do mundo para ela, mas é melhor do que ser depredada por um transeunte babão.
Este é o básico. Se você quiser saber mais, venha para o Departamento de Agronomia da UEL ficar cinco anos com a gente, e de quebra você ainda ganha um diploma de Engenheiro Agrônomo, que, é um dos profissionais responsáveis por plantios em larga escala.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Resultado novo com idéias antigas
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Era só fumaça no WTC ?
Mais que simplesmente cair, este coquetel de substâncias foi derretido com a incineração de 170.000 litros de querosene, aí pelos 300 graus. Incinerados, os plásticos liberam dioxinas e os metais derretem. Tudo isto foi conduzido para as traquéias e pulmões das pessoas através do pó de amianto. Seu pó muito fino não é filtrado pelas nossas narinas.
Este acidente criou substâncias químicas até então desconhecidas (na verdade continuam desconhecidas). Para piorar a situação, esta queima foi realizada junto com o concreto, o que implica que estes metais, dioxinas e amianto foram derretidos em pH de soda cáustica.
O mais próximo que chegamos disto é nas emissões vulcânicas, mas ao contrário do WTC, as emissões vulcânicas são ácidas. Nosso sistema respiratório reage bem aos gases ácidos, mas não reconhece os básicos, deixando-os passar. Os sintomas são tão claros que agora tem nome; “Tosse WTC.
Seguindo a regra de outros acidentes ambientais, o governo primeiro nega e depois sob pressão, confirma. Os informes da agência ambiental norte americana (EPA) foram vetados pela então consultora do Departamento de segurança nacional, Condoleza Rice, e mesmo aqueles divulgados na época foram posteriormente considerados, pelo próprio EPA como “sem fundamentação adequada”.
Em um terceiro momento, começa a guerra de estatísticas, quando os dados sofrem toda sorte de torturas até dizerem o que se deseja ouvir. Um artigo recente na prestigiosa revista científica Lancet de 3/09/2011 sugere que a taxa de mortes entre os voluntários do acidente seria menor entre os que trabalharam no salvamento e resgate (1%) que entre os que não trabalharam (2%). Um ponto positivo desta revista é explicitar as fontes de recurso. Entre outros, consta a secretaria de saúde da cidade de Nova York.
Aprendemos há mais de um século que as novas tecnologias trouxeram perigos sem cor, cheiro ou sabor (não é o caso da fumaça do WTC, que os sobreviventes dizem ser parecida com chupar uma moeda de cobre). No século 21 e em NY, ainda penduramos a conta da contaminação desconhecida na caderneta do cidadão inocente. Você paga quando quer algo, mas paga também quando não quer.
Seria bom se este acidente tivesse servido ao menos para percebermos quão pouco sabemos sobre o corpo humano, a natureza e como ambos interagem. Infelizmente é mais provável que toquemos nossa vida sem perceber as muitas torres gêmeas perto de nós.
Veja o resumo do artigo da Lancet neste link:
E o relatório do EPA:
sábado, 10 de setembro de 2011
Parte do problema ou da solução ?
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
O rodeio de Barretos é bárbaro !
O rodeio de Barretos é bárbaro !
Há seres humanos que só conseguem sentir empatia com o sofrimento dos filhos e parentes próximos. Há outros mais evoluídos que sofrem com a miséria dos conterrâneos ou até com a miséria de pessoas de outros países. Infelizmente, ainda poucos se movem com o sofrimento de animais, nossos parentes mais distantes.
No tempo em que éramos caçadores nas savanas africanas a habilidade de controlar animais devia ser muito importante. O fino verniz de civilização adquirido nos últimos milênios tornou antiquados costumes como escravizar seres humanos ou apedrejar adúlteros. Isto, para muitos de nós, não todos.
Como ainda há os incapazes de sentir empatia com o sofrimento alheio, é normal ainda priorizarem o lucro. Nero usou seres humanos como tochas para manter seu poder em Roma. Thomas Jefferson entre outros milhares lucraram com trabalho escravo (que aliás ainda existe em alguns locais tanto lá quanto aqui).
Agora um peão matou um bezerro, o que irá afinal suscitar uma discussão sobre a continuidade desta barbárie romana em pleno século XXI. Os organizadores da versão barretense da barbárie romana irão provavelmente repetir com o peão o que fazem rotineiramente com os animais, na tentativa de passar a imagem de “amigos dos animais”.
O peão que matou o bezerro é, sem querer, o mais empático em toda esta barbárie. Para este animal foi melhor morrer rápido que depois de anos de sofrimento.
Um dia seres humanos evitarão o sofrimento de animais, em especial por motivos fúteis como um rodeio. O peão que matou o bezerro está tão longe deste nível de civilização quanto os organizadores e todos que pagaram ingresso para entrar neste Coliseu do século 21.
Não chega a ser uma vergonha haver um pequeno grupo de pessoas querendo lucrar com o sofrimento animal (dados oficiais falam em 200 milhões de faturamento). Não há sociedade isenta de sadismo. O que surpreende é um público de quase um milhão de pessoas (incluindo sádicos de fato a alienados que não percebem a relação entre o show de música e a barbárie).
Em 2005 São Paulo já aprovou lei proibindo animais em rodeios, porém a Federação de Agricultura de São Paulo obteve liminar. Rita Lee chamou os organizadores de rodeios de bandidos. Ela está enganada. Bandido é aquele que o Sistema Judiciário reconhece como tal. Vendedores de cigarro não são bandidos. Vendedores de maconha são. Proprietários de circo que usem animais são bandidos. Organizadores de rodeio não são bandidos, assim como os proprietários de escravos do século 19.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
A eletricidade é maravilhosa, mas a grande disponibilidade de luz é um
problema. Escrevo esta coluna em uma hora da madrugada em que animais sem
visão noturna, como eu, deveriam estar dormindo.
Iluminar a noite não é um problema só para a fisiologia humana. Como muitas
espécies dependem do escuro noturno para dormirem ou se orientarem o avanço
de nossas luzes vai bagunçando o mundo também neste aspecto.
O caso mais conhecido é o das espécies de praia, que usam uma luminosidade
remanescente no mar para se orientar. Com o continente ficando mais claro,
elas se dirigem para a terra ao invés do mar. Hotéis adoram iluminar a orla
marítima. Nos locais com desova de tartarugas, ao invés das tartaruguinhas
nadarem para o mar, elas viram comida de cachorro em terra.
Plataformas marítimas também causam grande dano para espécies migratórias,
que perdem sua orientação por causa das luzes. Neste caso o dano é aumentado
pelo isolamento destas plataformas em meio à escuridão. No Mar do Norte, a
Shell mudou a iluminação de suas plataformas de petróleo e conseguiu reduzir
o impacto nas aves migratórias. No Canadá o governo tem convencido
empresários a desligarem a iluminação dos prédios em época de migração de
aves. Desconheço iniciativa parecida em nossas águas e terras.
Nas cidades não há canto sem luz, e estes resíduos de luz são capazes até de
influenciar a dinâmica de lagos, impedindo que espécies de zooplancton
venham à superfície pastar algas. Você achou que os lagos urbanos eram
verdes e poluídos só porque recebem esgoto ? Eles também são verdes também
porque são iluminados.
A luz que escapa ao objetivo de iluminar e torna-se poluição é também uma
contribuição ao gasto desnecessário de energia.
Também para nós, a supressão do escuro noturno impede a produção normal de
melatonina, o que causa grande confusão em nosso metabolismo. Quarenta
trabalhadoras dinamarquesas ganharam uma causa em 2009 por terem contraído
câncer de seio em função de trabalho noturno.
Você deve preocupar-se com a luz noturna mesmo não sendo uma trabalhadora
noturna dinamarquesa porque o mesmo órgão cerebral que cuida do ciclo de
dia/noite, também em muitos animais cuida do desenvolvimento sexual e ciclos
de reprodução. Outro dia entrei em uma loja em que a iluminação parecia
inspirada naqueles estufas de secagem de pintura. Saí correndo. Se querem
que eu fique em uma loja em à noite , que a façam soturna. Aliás, não
deveria nem estar fora de casa à noite. Deveria estar em casa cuidando de
minha glândula pineal. Cuide dela e ela cuidará de você.
Não é a toa que o treinador Nuno Cobra gastou um livro inteiro para uma
única mensagem. Durma !
É, aliás o que já deveria estar fazendo há bastante tempo. Veja o resultado
de nossos pequenos desperdícios de luz as imagens em
http://www.nasa.gov/centers/goddard/news/topstory/2003/0815citylights.html .