sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Legally binding ou legally blond?

Há muitas pessoas otimistas com a 21ª COP em Paris. Não sou uma delas.
As Organizações das Nações Unidas nada fizeram em muitas décadas de vida, a não ser prover algumas pessoas com um emprego chique, apesar das boas intenções.
Desde o propósito de sua criação, de evitar uma terceira guerra mundial, passando pela ajuda humanitária e atualmente a tentativa de evitar a catástrofe climática ambiental, ela sempre andou atrás da iniciativas dos países, por um simples motivo: São os países que detém o monopólio da violência, não a ONU. A ONU é uma cabeça sem corpo.
Na tentativa de justificar seus salários e ternos, os participantes enfatizam a importância de um acordo com validade legal (legally binding). Não confundir com o filme legalmente loira (legally blond) apesar da similaridade ainda maior que as palavras.
Um acordo legal implica aplicação de penalidade, que só pode ser feito por alguém que estivesse acima das partes envolvidas. Se eu faço algo errado para você, o Estado, acima de mim e de você, me prende. Não havendo quem possa fazer isso acima dos governos dos países, um acordo legal nada mais é do que uma jura de amor. Pior ainda; uma jura de amor a ser cumprida por um sucessor de governo.
A contribuição de pessoas como Elon Musk, Bill Mckibben, Annie Leonard e Naomi Klein é muito maior que a ONU com seus prédios e hierarquia, que só fazem dispersar energia e abaixar a cabeça para os países que pagam seus salários. Ao contrário, os líderes que escrevem livros importantes, organizam passeatas e mostram ao mundo que estamos diante de uma hecatombe, estão influenciando o voto. O mundo muda com atos individuais, mas também com votos.
E para você que mora em Londrina e não foi chamado a participar da reunião chique em Paris, amanhã haverá a 8ª Reunião do Ambiente, onde sua voz pode ser ouvida. Há sempre muita gente para reclamar dos problemas ambientais e da falta de educação das pessoas, mas poucas querem investir um sábado para melhorar as coisas. Talvez por isso preferimos que as reuniões sejam em algum lugar distante, como Paris

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Enxurrada de culpados

Sobrou algo para dizer sobre a barragem da Vale-BHP em Mariana?
O Governador chama de acidente mas é displicência, sua eleição contou com boa contribuição da Vale. Ele se pronunciou na sede da empresa com quem deveria litigar e depois calou-se. A Ministra do Ambiente não se pronunciou e a Presidente só o fez uma semana depois. Não há conserto para o dano, cuja fase aguda deve durar décadas. As empresas dizem que a lama é inócua, teria só ferro e alumínio, mas as primeiras análises mostram um coquetel de metais pesados. Várias centenas de milhares de pessoas ficarão sem água por tempo indeterminado. Mais uma vez os prejuízos estão sendo socializados enquanto os lucros são privados.
Tudo isto já foi dito, mas o que me preocupa mesmo é minha máquina de lavar roupa.
Ela está com um barulho estranho e o técnico falou – Vai ter que trocar o rolamento, que custa a metade de uma nova, e também já avisou que não encontrarei outras peças.
O que vou fazer é o mesmo que fiz com o relógio, o carro e a máquina de cortar grama: consertar e consertar muito além do razoável porque o reluzente bem de consumo está ligado à mineração e sua sujeirada.
O preço de uma nova máquina de lavar roupa não paga somente suas partes. Paga também a corrupção nos três poderes para evitar pagar o verdadeiro dano, paga a publicidade para manter o fluxo de novos clientes que de outra forma perceberiam a fria em que estão se metendo. Se soou parecido com tráfico de drogas, não é por acaso. Aliás, é igual até mesmo no efeito narcotizante.
A idéia de conserto deixou de existir para os objetos que nos cercam. Se os tivéssemos consertado mais, poderíamos agora ter um dano menor em Minas Gerais, quem sabe consertável... O traficante não existe sem o consumidor.
E antes que esta coluna seja mal utilizada pelos mal intencionados de sempre, repito o óbvio; os moradores da região não devem pagar pela ganância das três empresas. O direito de cada casa sem água, cada centavo de lucro cessante nos pequenos negócios e cada desempregado ao longo do Rio Doce tem prioridade absoluta sobre o lucro das três empresas displicentes, ou deveria ter...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Concessão Satânica

Há filmes aos quais retornamos sempre. Lá pelos anos 80 assisti Coração Satânico de Alan Parker. Prenhe de idéias, o filme mostra também como o caminho para o inferno é feito de pequenas concessões.
Nesta semana tive o lisonjeiro prazer de ser convidado para carregar a Tocha Olímpica. O trabalho de mais de uma década ajudando escolas a compostar seu lixo orgânico foi reconhecido pela Prefeitura, e este gesto tem grande significado, já que gestões anteriores restringiram o trabalho por miopia política.
No entanto, recusei o convite para não fazer uma concessão.
Já faz alguns meses que uma grande marca vendedora de água com açúcar, gás carbônico e ácido fosfórico vem se posicionando ao lado das Olimpíadas, que assim deixa de ser algo em favor da saúde e de transcender limites humanos, para ser vitrine de um produto prejudicial à saúde. Ao carregar esta tocha, eu estaria na verdade anunciando refrigerante.
Há alguns anos, uma grande empresa produtora de tabaco quis também fazer uma matéria em sua revista, e também recusei. Há um limite para a importância da visibilidade para as ações ambientais, assim como para como estas ações geram recursos financeiros.
Há o caso de uma área no Texas onde a ONG Nature Conservancy fez um longo trabalho para evitar a extinção da Galinha-das-Pradarias-de-Atwater, ameaçada pela perfuração de poços em sua única área de ocorrência. Após muito trabalho, conseguiram que a área afinal fosse doada a eles. Eis que a ONG está agora ela mesma produzindo petróleo na área, e a tal galinha está agora ainda mais próxima da extinção.
O dinheiro produzido está sendo bem usado em outros locais? É provável, mas o dano de uma concessão destas é certamente muitas vezes maior.
Outro recado do mesmo filme é a atenção com a arrogância, este problema de saúde ocupacional de professores. Portanto, faço esta recusa sem criticar a Prefeitura ou nenhum participante das Olimpíadas, já que eu mesmo carrego um grande fardo de concessões, como andar de carro, viajar de avião e tantas outras que não parece haver meio de livrar-me.


sábado, 10 de outubro de 2015

Consumo de criança

Eis que temos afinal um dia das crianças diferente, onde algumas vozes, ainda que poucas, se levantam contra a monstruosa aula de consumismo que a data se transformou, em nada diferindo do Natal ou Dia das Mães, mas ainda pior por perpetuar a idéia que sentimentos possam ser trocados por mercadoria.
Este desejo de passar tudo a limpo é antigo e talvez remonte aos peregrinos europeus vindo para a América tentar recomeçar uma civilização sem vícios, indulgências ou outras poluições. No caso das crianças me parece especialmente cruel colocar peso tão grande em ombros que além de pequenos, também estão inocentes nesta história.
O leite de soja é bom para nutrição? Dá-lhe colocar na escola para a criança tomar. Ler é importante? Dá-lhe botar o coitadinho para ler. O mundo está poluído? Educação ambiental na cabeça das crianças. Em todos casos há um quê de punição no ar, como se elas tivessem alguma culpa pelo mundo que ainda nem herdaram.
A última onda agora é o consumismo. Temos que educar crianças para não serem consumistas !
É igualmente uma monstruosa futilidade.
Não há modo de baixar um aplicativo anti-consumismo em sua família. Nossos filhos são o que experimentam. A escola nada pode fazer.
Outro dia uma autoridade internacional na área de mudanças climáticas reclamava para mim que apesar do filho haver feito um trabalho escolar excelente sobre o assunto, ele pedia um carrão com motor possante. Em outra hora, no entanto, a pessoa reclamava que riscaram seu carrão...
Não me preocupo com educação para o consumismo porque meu filho está vendo TODAS suas roupas irem para os amiguinhos menores, está vendo comprarmos roupas e brinquedos em brechós, e nunca verá o pai ou a mãe gastando com roupas de marca ou mercadorias com obsolescência programada.
Esta é uma boa dica. Pegue um dicionário e ensine para seu filho uma expressão que ele provavelmente ainda não conhece. Se você ainda não o tiver perdido para o mundo dos comerciais de TV, ele ainda vai preferir brincar de dicionário muito mais que qualquer brinquedo (com obsolescência programada) à venda.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Longe demais

Precisa de foto para percebermos que fomos longe demais?
Refugiados morrem todo dia, às centenas. não precisa ir a Síria, basta ir ao posto de saúde ou ao bairro pobre. A Síria é aqui, há refugiados de todo tipo ao redor.
Sempre desconfiou-se que o herbicida Glifosato é cancerígeno. Agora até a Organização Mundial de Saúde e o Ministério da Saúde confirmam. Qual foto precisa para mostrar que o lucro de uns é o câncer de outros?
Enquanto a temperatura do planeta sobe, continuamos ostentando nossos tanques de guerra urbana e reclamando das bicicletas. Precisa de foto também?
Quantos tratamentos cardíacos não acontecem por causa de corrupção na política? Tem foto?
Laboratórios de remédios distribuem mimos para médicos. Quantos de nós estão pagando para ficar ainda mais doentes? Alguém fotografou?
Umas tantas racionalizações talvez mantenham esta porcariada longe de alguns de nós, mas a bem da verdade é nossa humanidade que é levada diariamente aos poucos pelas ondas do mar.
A situação na Síria ficou conhecida só agora, mas não é nova. Entre 2006 e 2009 uma seca extrema, sem paralelo na história do Crescente Fértil mandou os agricultores para as cidades, muitos em subempregos.
Se você não conhece a história do Crescente Fértil, deveria, porque nossa humanidade nasceu lá, há dezenas de milhares de anos, com o excedente dos campos naturais de trigo servindo para estabelecer cidades, escrita, cultura e tudo o mais que nos faz humanos.
Tendo começado antes, este deveria ser um lugar excepcional, onde todos gostariam de morar, assim, uma escandinávia. Ao contrário, 20.000 anos de “humanidade” só fizeram desertificar e criar uma multidão de refugiados.
A morte desta criança não era só diretamente evitável. No começo deste ano o prestigioso periódico Proceedings of the National Academy of Sciences  publicou artigo provando que a seca recorde de 2006-2009 resultou das mudanças climáticas. Lembre de Aylan quando ligar seu tanque de guerra para levar seu filho para a escola.
Não deveriamos precisar de foto para sabermos que fomos longe demais.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Menos subsídios no setor energético

Por anos gastamos recursos preciosos tentando implantar fontes energéticas inviáveis e irreais. Recursos que foram subtraídos da educação, saúde e outras funções inescapáveis do estado. É chegada a hora de limitar o estado e deixar que a mão invisível do mercado oriente a geração de energia.
A energia deve ser gerada de maneira rentável porque não poderá para sempre depender do estado para manter seus preços artificialmente baixos.
Mas qual seriam estas fontes energéticas inviáveis e irreais?
Poucos sabem que os combustíveis fósseis contam com subsídios da ordem de 500 bilhões de dólares por ano, mais de 4 vezes aquele recebido pelas fontes renováveis.
E já antecipando as críticas, estes não são dados do Greenpeace, WWF ou Nature Conservancy, que aliás ganha uns trocados extraindo ela mesma um tanto de petróleo. Estes são dados da conservadora revista The Economist, citando a  mais conservadora Agência Internacional de Energia. Os dados do FMI são ainda piores, falamos em 5,3 trilhões de dólares, que é mais do que os governos gastam com saúde anualmente.
Ao baixar os preços dos combustíveis fósseis, a adoção de alternativas ficam inviabilizadas, mas porque isto acontece? Porque Petroleiras, Governos e inclusive grandes ONGS todas freqüentam os mesmos jatinhos, comprar ternos nos mesmos locais e jantam nos mesmos restaurantes.
Enquanto a gasolina dos carrões dos ricos é subsidiada, a escola do pobre tem aquele jeitinho ensebado que conhecemos. Muito poderia ser feito com energias eólicas e solares com este dinheiro. Só há um problema. Estas são fontes descentralizadas não geram um dinheirão como a extração de petróleo. Não pagam campanhas e tampouco dão dinheiro para ONGS esverdearem sua marca.
Uma outra contabilidade é pensar quanto você pagaria por um copo de água no deserto. Tudo que tem, não é? Os combustíveis fósseis acabarão com a civilização humana como a conhecemos. Este é o tamanho real do subsidio que está sendo praticado.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Animais que caçam

Conheço bem este sentimento de "– Eu sou demais !" Até falei dele na semana passada. Não há como escapar de senti-lo quando fazemos a coisa certa, acertamos na mosca.
Há pessoas, geralmente homens, que são capazes de sair de casa, são capazes até de sair de seu continente para atirar em animais e sentirem-se assim.
A grande sensação da internet nesta semana foi o caso do cara que pagou 50 mil dólares para matar um leão. Enquanto a justiça decide se é legal ou não, ele está sendo achincalhado. Nem se sabe em que canto anda, mas certamente menos acuado que o animal que matou.
Os caçadores gostam de falar em “fair chase”, que seria aquela caça feita com armas não muito avançadas. Ou seja, seria feio usar rifles de precisão, por exemplo, e seria bonito usar armas básicas como arco e flecha. Cecil foi alvejado com uma flecha e ainda conseguiu manter-se por 40 horas, até levar um tiro.
O fair chase só faria sentido para mim, se fosse para estar em pé de igualdade com o animal, ou seja; tanto você pode pega-lo quanto ser pego. Caçador de fato é aquele que arrisca seu belo traseirinho para trazer proteína animal para sua família. Esse aí é só um dentista armado.
Faz décadas que ouço o argumento que a caça traz recursos, cria empregos e injeta recursos nas unidades de conservação. Sempre argumentei que era um dinheiro que por mais que pudesse viabilizar boas iniciativas, causava o desserviço de estimular a morte. Como que uma unidade de conservação-que serve para resguardar a vida- pode viver às custas da morte?
Apesar de compartilhar o ódio de toda internet com o assassino, trata-se de ambientalismo fácil. Afinal, a África é bem longe e ninguém convive com leões. É fácil postar uns impropérios e seguir com a vidinha do mesmo jeito.
Quantos estão dispostos a reduzir suas emissões de carbono? Quantos pensam na origem das matérias primas que consomem?
Esta falação toda não mudará a situação em curto prazo, mas pode provocar a catarse necessária para transformar a caça esportiva de imoral mas legal, em imoral e ilegal.
Principalmente espero que ninguém faça nada de mal, fisicamente, a este dentista. Maltratar animais é coisa de caçadores esportivos.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Plutão é aqui

Foi um feito da engenharia. Decolar um foguete tão rápido que passou pela Lua em poucas horas, e seguiu na mesma velocidade por nove anos até chegar em Plutão, de onde começou a mandar as fotos nesta semana.
Eu entendo a alegria dos engenheiros quando a coisa toda dá certo. Em meu laboratório, comemoramos coisa muito menor, como medir temperaturas a 100 m de distância. Essas coisas tem infinitos modos de dar errado, mas só um de dar certo. Quando funciona a gente se sente espertíssimo, mas qual mesmo a importância?
Suponhamos o cenário fantástico que as tais montanhas de gelo no pólo contém formas de vida espetaculares. E daí? Daí daqui a mil anos ainda iriam falar sobre como isto completou a revolução de Copérnico (a Terra não é o centro do universo) e de Darwin (o homem é somente mais um animal), com a idéia que a vida também não é exclusividade da Terra, mas repito, qual a importância disto?
Nesta semana tive o privilégio de tomar um trem lotado às margens do Pinheiros em São Paulo. As fotos de Plutão mudam a vida daquelas pessoas exatamente em quê? Agora não andam mais de trem?
Há algumas semanas fiz aqui umas contas mostrando que boa parte da agricultura brasileira poderia manter-se só com o Nitrogênio em nossa urina. Tive um enxurrada de respostas dizendo que seria muito complicado, talvez ainda mais que mandar uma câmera fotográfica com um transmissor para Plutão.
Mas uma outra notícia, também desta semana, mostra como uma ONG no Haiti já vendeu 300.000l de composto de fezes e bagaço de cana. Eles têm um pequeno subsídio para coletar as fezes em baldes fechados e levar para dois locais onde a compostagem é processada.
Pouca gente quer se envolver com transporte de cocô quando há alternativas como fotografar Plutão, mas para o bilhão de pessoas sem acesso a sanitários aqui mesmo na Terra, estes dois caminhos são mais que alternativas profissionais; um deles muda a vida das pessoas enquanto o outro é mero circo.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Estóicos e Epicuristas, Novos e Velhos

Estoicismo quer dizer resignar-se diante de um sofrimento. Estóico é aquele que engole o sapo quieto, mas a origem da palavra é diversa. Estoicismo é uma corrente filosófica grega que propõe uma vida de acordo com a natureza e que atribui grande valor ao estudo e ao conhecimento. A parte do sofrimento foi marketing dos epicuristas, que consideram o frugalismo um grande sofrimento.
Lembro de uma propaganda na última vez que assisti TV, há meses. Uma dupla caipira falava da saudade do campo, e quando a câmara abria, os mostrava em um grande barco, enquanto eles cinicamente repetiam Oh Saudade...
Há umas duas décadas, eu já falava em sala de aula sobre abdicar de consumir, e notava um grande desconforto. Afinal, acumular dinheiro e bens é nossa suma finalidade, e para isso vale tudo, até mesmo trabalhar, não é ?
Muitos ainda estão nesta, mas já há também muita gente percebendo que estar sempre atrás de mais talvez não seja um bom uso para a única vida que temos. Mais além, alguns até já enxergam o esgotamento de recursos naturais que isto causa.
Recentemente contamos também com exemplos vindos de cima, o papa que andava de ônibus e que agora usa um carrinho básico, o ex presidente do Uruguai que mora em um sítio simples, um monte de gente morando por opção em casas minúsculas, as tiny houses, para ter menos e viver mais.
Um exemplo menos conhecido é o do apresentador Silvio Santos que diverte-se vivendo como desconhecido nos EUA, onde pode ir ao supermercado e cozinhar. Precisava ter tanto dinheiro para viver como qualquer um de nós?
O estilo simples de vida tem tanto apelo que muitos querem parecer, mesmo não conseguindo. Sêneca talvez tenha sido o primeiro deles, mas não o único. O Príncipe Charles também fala sobre um modo de vida simples, mas sua vida está longe disto. Mesmo sendo hipócrita, o “faça o que eu falo” tem seus benefícios porque termina inspirando muitas pessoas, ou seja muitos terminam assim mesmo praticando.

Ainda pior que a degradação planetária trazida pelo desejo de ter sempre mais, é ver o desperdício de tantas vidas que poderiam ter sido mais felizes.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Agora vai

Você se lembra onde estava quando caíram as torres gêmeas ?
Daqui a 1000 anos os alunos de história estarão decorando o 18/06/2015.
Até aqui, a conservação andou de lado. Falamos muito, alguns poucos mudaram seu modo de vida, mas mudança em nível mundial, mensurável não aconteceu. Ao contrário, com a ascensão social de grande contingente ao redor do mundo, a degradação de recursos naturais só piorou, com casas maiores, carros maiores, mais viagens de avião e maior consumo de carne. Todos querem ser o Grande Gatsby.
Não há artigo ou palestra de ambientalista que não comece com alguma citação da reunião do Rio em 1992. Alguém viu alguma mudança? Eu não. Ainda que nossa consciência global tenha melhorado, e muito, nestes 20 anos, as grandes reuniões são reativas. Elas acontecem porque há um sentimento de que algo precisa feito, mas seu resultado sempre é mais reuniões, documentos, viagens e hotéis para homens de terno.
No dia 18/06/2015 a Igreja Católica manifestou da maneira mais forte possível, que não mais crê que o ambiente, entre outras questões terrenas, criariam certa “confusão” para a fé ou para o aprimoramento espiritual. A encíclica deixa claro que cuidar do ambiente é questão de compaixão, os mais pobres sofrem mais as mudanças do clima.
A encíclica também conserta o erro histórico de uma igreja medieval que permitia comprar indulgências. Assim como o dinheiro não inocenta um assassino, não vamos a lugar algum comprando e vendendo permissões para poluir.
O Papa tem sido também um exemplo de simplicidade, estabelecendo um exemplo de vida com significado, em oposição a seu antecessor, mais chegado a sapatinhos vermelhos de marca.
Por centenas de anos acreditamos que o planeta seria o jardim para Adão e Eva  multiplicarem-se. E neste particular, católicos, judeus, muçulmanos e comunistas se igualaram.
No entanto, a evolução de Darwin reafirma o gênesis, assim como a preocupação com o futuro climático do planeta reafirma a compaixão católica. 
Tivemos que esperar um líder espiritual com vivência científica em química, literatura e psicologia para conciliar a divergência entre ciência e religião, que só existe mesmo porque interessa. 
Jeb Bush, candidato católico à presidente dos EUA, tem sua plataforma eleitoral no descrédito da ciência do clima em favor da “fé”. Seu comitê já está recorrendo ao conceito católico de livre arbítrio para tentar não perder votos. E como ficam as petroleiras e distribuidoras?
Como disse Upton Sinclair; É difícil fazer um homem entender algo, se o seu salário depende dele não entendê-lo. Não será fácil, mas ao menos agora temos um líder à altura do desafio.

PS Para os que não gostaram da escola ser ainda a mesma daqui a mil anos, lembro que ela já era assim quando a Igreja lançou a bula intercoetera em 1493...

sábado, 6 de junho de 2015

O certo pelo motivo errado

Nesta semana os Estados Unidos tomaram uma medida importante para tentar evitar o progressivo declínio das colméias de abelhas em todo mundo desenvolvido, que talvez também esteja ocorrendo por aqui, desapercebidamente. De uma canetada, foi determinada a restauração de quase 3 milhões de ha de ambientes positivos para polinizadores.
Isto é bom ou mal?
Além da parte obviamente positiva, este decreto tenta esconder a real causa do problema que são os inseticidas neonicotinóides, amplamente usados na agricultura veja uma coluna de 2014 .
Não há reserva que resolva enquanto as abelhas estiverem morrendo como moscas (não perdoem o trocadilho).
Não precisa ir longe para ver o certo sendo feito pelo motivo errado. Depois de fugido o cavalo, São Paulo está, por diferentes meios, consertando a cerca e estimulando a restauração florestal na Cantareira.
Faz mais de século que sabemos que árvores retiram água do solo. Mesmo considerando o tanto que elas ajudam a infiltrar, há um débito. Árvores melhoram a qualidade da água, mas reduzem sua quantidade.
Como o Governo de São Paulo tem demonstrado estar disposto a servir qualquer tipo de água para resolver o problema, o coerente seria cortar árvores para reduzir a evapotranspiração.
Os benefícios das árvores vão da física à psicologia, mas mesmo elas podem ser usadas para iludir. O óbvio e histórico problema de São Paulo é falta de mecanismos de conservação e redução de consumo, mas isto envolve parar de passar a mão na cabeça do cidadão e informá-lo, mas qual político correrá o risco de fazer o certo pelo motivo certo?
Em Londrina, a Prefeitura e alguns vereadores querem por que querem (e por que querem tanto ?) criar um novo distrito industrial próximo ao maior fragmento de floresta em centenas de km, a Mata dos Godoy.
Ainda que seja sempre correto visar o desenvolvimento e a geração de empregos, a tentativa esconde certa luxúria imobiliária. A cidade já tem distritos industriais, e eles estão longe de cheios. A cidade como um todo, aliás, tem mais de 50% de terrenos vazios.
Falando em emprego, fico com dó de ver quase todos ambientalistas da cidade gastando seu precioso tempo em reuniões modorrentas para falar o óbvio, mas talvez seja este mesmo nosso sacerdócio.
Também na conservação existe a conhecida estratégia de usar espécies-bandeira. A idéia é conseguir recursos para a conservação de determinada espécie carismática como baleias ou mico-leões dourados e daí usa-los para conservar o ambiente destas espécies, que naturalmente envolve muitas e muitas outras espécies. É uma estratégia tão clássica que já nem mais assusta ninguém, mas é aí que mora o perigo.
Mas é de balela em balela, mesmo que pequenas, com baleias, que o mundo vai ficando como está.



sábado, 23 de maio de 2015

COP Turismo em Paris

Não sou um grande entusiasta destas reuniões anuais do clima, as “Conferências das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima”, a começar pelo nome. O caboclo que começa a complicar, é porque está querendo escapulir.
Por um lado ficamos achando que os todo-poderosos resolverão o problema, quando em verdade estão mesmo se matando por causa de filigranas em documentos que carecem de qualquer validade. Delegar um problema é ruim, e é ainda pior porque delegamos para as pessoas erradas.
Todo ano, a mesma ladainha. A reunião é sempre em algum lugar turístico (a deste ano é em Paris) e a concentração de carbono não para de subir, e é até ajudada um pouquinho pela queima de combustível de aviação dos delegados.
Apesar de minha descrença histórica, este ano estou otimista.
Em antecipação a Reunião do fim de ano em Paris, os EUA tomaram algumas medidas fortemente restritivas e nesta semana a mídia começou a falar em um acordo bilateral com o Brasil ara limitação das emissões de carbono em ambos países.
Na semana passada, uma reunião preparatória com a presença de Merkel e Hollande e representantes de 35 países imprimiu um tom forte ao evento. Os dois mandatários hipotecaram seu prestígio para resultados reais em Paris.
Além disto, há os ventos vindos do mundo real. O custo de geração de energia elétrica renovável têm caído regularmente, expulsando o carvão para fora da matriz energética. Só na China, a redução nos 4 primeiros meses de 2015 é igual a todo o consumo do Reino Unido no mesmo período.
Também no mundo real, o ativista Bill Mckiben tem conseguido mobilizar milhões em passeatas nos EUA. Uma pesquisa nesta semana no Brasil mostrou que a maioria dos brasileiros acredita já estar sendo afetada pelas mudanças climáticas.
Pensando bem, até mesmo esta possivelmente bem sucedida reunião de Paris será inútil, Quem está mesmo começando a virar este jogo, é a indignação de cada um de nós.
Portanto, mantenho minha descrença nas COPs. Elas nunca lideraram coisa alguma, só estão mesmo é a nosso reboque.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Câmara Ruralista

Nesta semana uma internação hospitalar de minha mãe me fez recomeçar a ler Raízes do Brasil, o livro de 1936 de Sergio Buarque de Holanda.
Vi que as atenções se voltaram para a Assembléia Legislativa em Curitiba, mas enquanto isto, muita coisa aconteceu em Brasília, na Câmara dos Deputados.
O projeto de lei que regulamenta a rotulagem de transgênicos no Brasil, em tramitação desde 2005, foi reprovado nesta semana.
Impedindo a rotulagem, a bancada ruralista e as empresas tomaram uma posição contraditória e arriscada para si próprios. Se afinal a coisa é tão inócua quanto dizem, não desejariam eles a rotulagem como forma de divulgação de seus produtos?
Resumindo; Por que esconder se os transgênicos não fazem mal?
Mas isto não foi tudo. Nesta semana a bancada ruralista também conseguiu descaracterizar o marco legal da biodiversidade a ponto de tirar a permissão de uso do IBAMA e colocá-la no Ministério da Agricultura de Kátia Abreu, fervorosa defensora da Biodiversidade e dos direitos dos povos indígenas, estes que são em alguns casos detentores de direitos sobre o patrimônio biológico, de acordo com a bancada ruralista não serão ouvidos nunca.
Some aí na lista a destruição do Código Florestal (um esforço jurídico de 8 décadas), em 2013, e não esqueça também que o Cadastro Ambiental Rural acaba de ser postergado por um ano. O CAR é a distração dada aos ambientalistas para que parem de insistir nesta bobagem de área florestal. Nem mesmo uma data para registrar a Reserva Legal este país consegue impor.
Mas voltando ao livro Raízes do Brasil, a grandeza de Sergio Buarque de Holanda é explicar a gênese de nosso país de maneira tão fidedigna que continua válida oito décadas depois.
Veja isto;

Nos domínios rurais, a autoridade do proprietário de terras não sofria réplica. Tudo se fazia consoante sua vontade, muitas vezes caprichosa e despótica.

Enquanto se mantiver esta Câmara de Deputados, nada que possa desgostar os ruralistas irá ser aprovado.

Para breve aguardem o retorno das sesmarias e do escravagismo.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Nuestros irmãos

Fora de casa enxerga-se mais longe, talvez pela distância de nossos probleminhas mundanos, talvez por um olhar mais crítico com um mundo alheio.
Há, bem ao nosso lado, um país para o qual temos virado as costas. Ainda que olhando no mapa a situação se pareça mesmo com isto, com a frente do Brasil toda voltada para o litoral, de costas para a Argentina.
Nossa falta de visão estratégica além desta briga fabricada por aqueles sem cabeça para mais que jogos de futebol, tem nos feito perder oportunidades em todos âmbitos, inclusive ambientais com nossos vizinhos.
Nestes dez dias por lá, vi tanta similaridade que não caberia aqui. Aqui também há muita terra com uns poucos ricos e muitos pobres, desmatamento, falta de infra estrutura e de planejamento.
Uma conclusão (minha, ao menos) deste Simpósio Latino Americano de Restauração Ecológica, é que a solução destes problemas é muito mais que técnica. Ou melhor; Se aplicássemos tudo que sabemos sobre restauração ecológica, nossa vida poderia estar bem melhor.
Ao contrário de nós, no entanto, há motoristas de táxi em Buenos Aires capazes de ouvir música clássica ou discutir sobre as diferentes vertentes da igreja católica. Talvez isto se deva ao fato das pessoas serem mais instruídas, talvez ao fato de que dirigir táxis é o melhor emprego que pessoas bem instruídas conseguem por lá (não estamos muito longe disto). De todo modo, vê-se pessoas lendo em cada um dos cafés de Buenos Aires.
Entre tanto assuntos cotidianos,  o ambiente é dos mais sensíveis à educação e conhecimento, por prescindir da atuação individual. Consumo meus dias repetindo o básico para pessoas surpresas pelo óbvio. Como ir para a frente assim?
O ambiente brasileiro estará muito melhor no dia em que for possível ter uma conversa razoável com o motorista de táxi. Até lá, precisamos deixar o complexo de lado e fazer nossa lição de casa mais básica na educação e no ambiente.

Tanto na Argentina quanto no Brasil, empregar o que sabemos é talvez mais importante que tentar saber mais, no ambiente e em tudo o mais.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Não Gaia nesta

Foi nos anos 70 que James Lovelock criou a teoria de Gaia, segundo a qual o planeta teria uma tendência a manter-se estável, mais ou menos como eu e você tendemos a ficar nos 36 de temperatura. 
Apesar do belo simbolismo de atribuir personalidade ao planeta, não há nada de cientifico nesta “teoria”. Planetas são diferentes de seres vivos, que podem manifestar desejo.
Eis que na semana passada, vi o planeta todo, em pleno funcionamento. Vi vulcões expelindo enxofre, assim como o arco de desmatamento da Amazônia. Vi a poeira da China e do Deserto do Saara cruzando oceanos. Vi as latitudes médias sem vento, que tanto problema causaram para os antigos navegadores. Vi os vortexes de ar frio dos pólos que estão enterrando os norte americanos em neve, e vi também as emissões das termo elétricas deles.
Tudo isto em somente 6 meses de dados do satélite GEOS5, que é capaz de “enxergar” materiais em suspensão na atmosfera. Quando a NASA colocou juntos estes 6 meses de imagens, tudo isto ficou visível na forma de um filme que você pode ver neste link  .
Nos anos 70, Lovelock e Margulis não tinham estas ferramentas, então talvez recorreram a esta “mentirinha” para conseguir que as pessoas tivessem uma percepção mais ampla do planeta.
Como cientista, você pode descobrir que a fuligem produzida na China e Ásia está fazendo chover mais no Pacífico, mas sua descoberta vai ficar escondida até que as pessoas enxerguem o que você está falando. E quando enxergarem, talvez percebam a distante, porém real, conexão existente entre as bugigangas produzidas na China com a falta de água na Califórnia. Igualmente perceberão a conexão do churrasquinho inofensivo com o desmatamento e a falta de chuvas.

Gaia foi uma mentira para chegar a um lugar correto, tal como usar o Papai Noel para ensinar para crianças que existe bondade. Bem menos que isto, se estas imagens conseguirem fazer com que as pessoas percebam que não é possível reverter as mudanças do clima com ar condicionado ou pegar água do vizinho quando ela escassear, já estarei feliz.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Cassandras do Ambiente

Diz a mitologia grega que Apolo, querendo seduzir Cassandra, lhe deu o dom da profecia, mas que não sendo correspondido, ele lhe amaldiçoou para que ninguém acreditasse nela. Não sem motivo, Cassandra é frequentemente mostrada arrancando os cabelos.
A vocação de Cassandra dos ambientalistas é até anterior ao apogeu grego, mas vou me limitar às previsões mais recentes.
No começo dos anos 60, Rachel Carson publicou Primavera Silenciosa, o livro mais amado, odiado e menos lido que conheço. Seu sucesso fez dele um imenso telhado de vidro. Se você se ativer aos detalhes, de fato achará um mar de enganos, mas no atacado o livro acerta muito. A fertilidade masculina só se reduz desde os anos 50, assim como adiantou-se a data da primeira menstruação e sofremos cada vez mais de cânceres precoces. Não só no Brasil, nem na América do Sul. Não só no ano passado, nem só na última década.
A primavera não está silenciosa, mas muito menos espécies estão fazendo barulho.
Igualmente, desde os anos 70 que há pessoas preocupadas com a brusca mudança do clima, e ainda hoje muitos não enxergam, ou não querem enxergar, como o legislador norte americano que levou um bolo de neve para a sessão (seria ignorância preferível à desonestidade?). Pelo tanto que já influencia a vida de todos no planeta, e pelo tanto que ainda vai influenciar, esta talvez seja premonição que mais cabelos custará a Cassandra
Também faz décadas que ouvimos os protestos pelo desmatamento da Amazônia, mas preferimos achar que a a conversa que tudo está interligado seria uma coisa meio hippie, meio bicho-grilo. Eis que os climatologistas comprovam que a água que mantém a parte mais economicamente ativa da América do Sul vem exatamente da Amazônia. Ou seja:   a água que a fábrica de móveis usa para transformar madeira da Amazônia em dormitório completo casal capelinha vem exatamente da Amazônia.
A Amazônia agrega valor à economia, disse Cassandra fazendo pouco do jargão administrativo...
Faz muitos anos que as Cassandras do ambiente estão avisando que há um mar de usinas de energia entre nós, prontas para produzir sem impacto ambiental algum, que se chama aumento de eficiência. Em nível de usinas, com a troca de equipamentos, em nível doméstico, urbano e até pessoal. Os combustíveis fósseis nos tiraram da crise de energia mas nos lambuzamos com ele...
Há décadas, as previsões nos mostravam em veículos voadores, iríamos de jato ao trabalho. Recentemente passamos a andar de bicicleta no futuro. Apesar de fugirmos dele sempre que podemos, precisamos de mais trabalho braçal. Não só a nossa espécie, mas todo o planeta precisa que façamos mais com nosso corpo e menos com energia de fora. Na idade média vivíamos um gargalo energético, do qual fomos retirados pelo carvão, e depois pelo petróleo, no qual nos lambuzamos. Para sair disto precisaremos não só de células solares, mas também de limitar nosso gasto de energia para manter o que é essencial. Troque sua academia por uma horta, por exemplo. Troque o carro por ir a pé, ou bicicleta. Troque o trabalho de 15 h por dia, por fazer consertos em casa. Sua vida familiar e seu planeta agradecem.
Mas os ambientalistas também erramos. Há uma década começamos a usar um modelo de usina hidrelétrica que não depende de grandes represas, As usinas de fio de água. Foram consideradas um avanço por reduzir o impacto ambiental. Não antecipamos que com as mudanças climáticas as secas seriam um estado normal e as represas poderiam ser um fator benéfico para ecossistemas e pessoas.

Da mesma forma, a energia nuclear era o vilão incontestável dos anos 80, mas descobrindo o efeito da queima de carbono, muitos chegaram a considerá-la uma alternativa, mesmo com todo o risco associado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Selfie Global

Foi lá pelos anos 80 que vi um livro sobre o conceito de capacidade de carga, escondido em uma biblioteca. Isto foi nos tempos em que a gente ainda esbarrava em idéias novas em Bibliotecas.
Aquilo foi uma ficha, talvez um fichário inteiro, que caiu para mim. Quantos animais ou quantas pessoas uma área é capaz de manter? As idéias ecológicas se uniram a Malthus ali mesmo, no chão da Biblioteca (nesta época eu podia sentar no chão).
Se houver gente demais, ou se cada um usar recursos demais, a coisa degringola. Você vai encontrar exemplos em sua casa, cidade, país ou planeta, onde quiser.
A idéia me impressionou tanto, que quis até trabalhar com ela, mas na época era impossível. Como medir estas coisas de verdade, como colocá-las em prática ?
Ainda que nos 80 já tivéssemos visto aquela imagem fortíssima da Terra como uma limitada (ainda que gigantesca) bolinha de gude, tirada a meio caminho da Lua, ela ainda era somente isto, um ícone, um símbolo forte, mas de pouco uso prático.
Nesta semana demos um passo importante para pensar o ambiente do planeta como um todo. Foi lançado o satélite DSCOVR que estacionará em um ponto onde a gravidade da Terra anula a do Sol, e que é distante o suficiente para enxergarmos o planeta todo de uma vez.

Esta visão ampla é cada vez mais necessária se quisermos entender um pouco o que vai acontecer enquanto o planeta se aquece. Por que, por exemplo a minha querida cidade de Boston se enterra em neve enquanto o planeta se aquece? É que com a água do mar mais quente, evapora mais umidade que em contato com o ar frio... E por que a minha querida cidade de Londrina enfrenta secas cada vez mais extensas? E não só ela, mas boa parte da Califórnia, Austrália e África também. Esta já é mais difícil de desvendar, porque interagem efeitos locais e globais. Em 110 dias, quando começarmos a enxergar o planeta todo continuamente, iremos entender isto, e quem sabe então tomar algumas medidas concretas para evitar que em 100 anos sejamos duas colônias de poucos milhões de pessoas morando nos pólos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Mais xixi

Neste mesmo espaço há algumas semanas, publiquei singela contabilidade mostrando que há nitrogênio suficiente no xixi dos brasileiros para manter nossa citricultura e cafeicultura e ainda sobrar. O propósito foi contribuir para a discussão tão antiga e também tão recente discussão do uso da água nas cidades.
Raras colunas causaram tanto desconforto entre os leitores, por isso vamos explicar um pouco mais as coisas.
Os brasileiros maiores de dez anos fomos criados em uma condição de tanta abundância de água, que achamos correto usa-la para diluir excrementos e nem imaginamos maneiras de mitigar o problema. No entanto, elas estão por todo lugar e não percebemos. A estação de tratamentos de esgoto retira excrementos da água. Nos casos de menores quantidades, o lançamento in natura em certos rios e outros corpos de água se processa sem muitos problemas, desde que estejam em um limite razoável.
Igualmente, uma fossa séptica bem construída retorna os excrementos á natureza sem causar poluição.
Muitas pessoas me escreveram perguntando o que podem fazer.
Há vinte anos, ligar para os EUA era coisa de rico. A mudança resultou do trabalho conjunto de governos, empresas e cidadãos.
Assim como no caso da internet, não há solução única. Atualmente, o esgoto desce por gravidade, é bombeado por usuários ou por empresas de saneamento, ou por condomínios. Em alguns casos, como em Dubai, é até transportado em caminhões tanque.
No meu caso (ou na minha casa...), o esgoto é disposto em uma grande massa de carbono que usa o nitrogênio e fósforo para decompor-se. Algumas pessoas poderão usar esta solução. Outras podem usar a solução da fundação Bill e Melinda Gates, que usa energia elétrica para processar celularmente. Há vasos sanitários que separam número um de dois. Há, na Califórnia, usinas de reaproveitamento de água que transformam esgoto em água potável em 45 minutos, e o resultado é tão bom que a água não é lançada em alguma represa, como pretendem fazer os paulistanos. Eles bebem mesmo !
Não devemos buscar a melhor solução, elas geralmente não existem frente a uma diversidade de situações. Devemos buscar o que funciona em cada lugar. 
O que posso assegurar, é que é muito mais divertido bombear o esgoto e fazer composto de alta qualidade, que mandar o nitrogênio embora, para virar poluição em algum outro lugar.
É pedir muito, que a mesma geração que inventou a internet, reinvente também o transporte de excrementos?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Xixi e Agricultura

Nesta quinta feira passei uma tarde agradável em companhia de outras pessoas que também desejam que o mundo use melhor seus resíduos para produzir comida. Foi uma tarde inteira conversando sobre como estimular a produção de composto em casa, no trabalho e onde mais for possível.
Da UFSCAR de Araras continuei a viagem para São Paulo pensando em tantos nutrientes causando problemas na água e que poderiam ser melhor aproveitados. Fiz umas contas com nosso xixi.
Ninguém gosta do cheiro, mas xixi contém muito Nitrogênio, que é um nutriente que as plantas precisam em grande quantidade para produzir proteínas.
Desde a Segunda Guerra que usamos Nitrogênio produzido em grandes indústrias, e elas consomem muita energia para retirá-lo do ar. Poluímos no passado e no presente para produzir a uréia com que a agricultura repõe o Nitrogênio retirado.
Há mais de 200 milhões de pessoas fazendo xixi todo dia em nosso país, o que soma 470 mil toneladas de Nitrogênio por ano. O que se pode fazer com isto?
Há pouco mais de um bilhão de pés de café em nosso País. Sua manutenção consome algo como 20.000 toneladas de N. Produzimos uns 18 milhões de toneladas de laranja, que consomem algo como 35.000 toneladas de Nitrogênio para sua reposição. 
A conclusão é que daria para manter a citricultura e a cafeicultura com um décimo do xixi deste país.
Não gostaria de ver pessoas carregando seus excrementos pelas ruas como faziam os escravos coloniais (conhecidos como tigres por causa dos escorridos nas costas) e nem precisamos. Há inúmeros modos de tratar nossos excrementos além da via tradicional, e para que eles se tornem realidade precisamos enxergar acima e adiante de nosso quadrado.
O agricultor paga para colocar Nitrogênio em seu solo. As pessoas pagam para retirar o Nitrogênio de casa. As cidades pagam para retirar o Nitrogênio da água, e falta água para todos.
Enquanto uns puxam a corda para um lado, outros puxam para outro, e não saímos do lugar.
Aproveitar melhor nossos nutrientes não é um sonho idealista, é somente uma proposta para tornar o mundo menos insano.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Agricultura versus Ambiente

O último lance da queda de braço entre agricultura e ambiente é a indicação da Senadora Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura.
A resistência da Presidente com a natureza e o pensamento a longo prazo é histórica, mas ela poderia ter aproveitado a oportunidade para construir a necessária ponte entre ambiente e agricultura, ao invés de destruí-la com um nome que não é bem aceito por nenhum ambientalista e nem mesmo por muitos grandes produtores de grãos.
Onde foi que a agricultura passou a ser inimiga do ambiente e vice versa? Onde foi que nos perdemos?
Historicamente, as questões de natureza eram tratadas dentro das secretarias e ministérios da Agricultura. Muitos dos grandes nomes ambientais do passado eram agrônomos.
Não sei em que momento da história recente passamos a crer que alimentos são produzidos em outro local que não o mesmo ambiente, e que não seriam os próprios agricultores os primeiros a sentir os impactos de um ambiente degradado.
Neste link e neste você encontra alguns trabalhos científicos muito bem aceitos entre os pesquisadores, mostrando que a agricultura terá que lidar com problemas ainda mais sérios que dois graus de aumento de temperatura.
Da mesma forma, está nas mãos da agricultura resolver alguns problemas ambientais antigos como o desmatamento da Amazônia. Nesta semana foi renovada a moratória da Soja, que é um compromisso entre governo e indústria para que a soja plantada em áreas desmatadas na Amazônia não possa ser comercializada e que de acordo com dados oficiais, chegou a reduzir o desmatamento em mais de cinco vezes em alguns municípios. A moratória é parte do esforço que levou à redução do desmatamento da Amazônia em 18%, conforme dados publicados esta semana pelo conceituado sistema PRODES do Inpe.

Há um terreno fértil para a construção de muitas pontes entre agricultura e ambiente, mas este terreno permanecerá infecundo se Kátia Abreu ocupar o ministério da Agricultura.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Quem quer faz, quem não quer manda.


Em 2002 a banda Coldplay lançou seu muito bem recebido álbum A Rush of Blood to the Head, cuja emissão de carbono seria neutralizada pelo plantio de 10.000 pés de manga na Índia, mas eles não fizeram, mandaram uma ONG fazer, que mandou outra e ao fim somente 300 mangueiras foram plantadas, que talvez não tenham sobrevivido à seca.
Aqui em casa, depois de quase dois meses sem chuva, junto com as altas temperaturas de outubro e novembro, o solo estava seco, duro e rachado, e até mesmo as resistentes mangueiras estavam muito secas, ameaçando morrer. A água da chuva acumulada nas cisternas já havia acabado há semanas e a solução seria ou deixar morrer ou gastar água tratada.
Isto, até que a mulher que amo inventou de esperar a água do chuveiro esquentar com um balde. São oito litros por banho. Como o nosso Pedrinho toma banho comigo, são 16 litros de água por dia, que salvaram não só nossos pés de manga Palmer e Tommy Atkins, mas também a Uva Niagara, Abacate, e Carambola, estes só na parte da frente do terreno.
Os da parte de trás, macieiras, mexiriqueiras, limoeiros, laranjeiras e tantos outros foram salvos com água de fossa mais ou menos filtrada. Repugnante para mim e para você, mas deliciosa para as plantas, ciosas de nitrogênio da urina, fósforo dos detergentes e potássio dos sabões.
Se você está receoso de ir para São Paulo agora que eles vão reutilizar a água de esgoto, deveria pensar duas vezes. Toda cidade que bebe água de rio, bebe esgoto diluído, excluindo talvez algumas da Região Norte. O esgoto que passou por superfiltragem em membrana e depois foi esterilizado com ultravioleta é muito melhor que a água que as companhias retiram dos rios para abastecimento.
Se quisermos enfrentar as secas que vem por aí sem carregar latas de água na cabeça precisaremos empregar esquemas criativos de acumulação, reuso e reciclagem, além da economia pura e simples.
Se você quiser ver isto acontecer, terá que fazer e não mandar fazer.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Aperto do clima

Nesta semana vimos os presidentes das duas nações campeãs de emissão de carbono apertarem as mãos fechando um importante acordo para futuras reduções.
Em minha cabeça pairam dúvidas se a coisa é para valer. Até compreendo que não se pode reduzir as emissões de paises inteiros do dia para a noite, mas muita coisa pode mudar no prazo de 10 anos para os EUA reduzirem suas emissões para pouco mais de 4 Petagramas de Carbono/ano, ou nos 15 anos acertados para a China parar de aumentar suas emissões.
Na pouco democrática República Chinesa, as condições para cumprir o trato talvez sejam melhores, mas nos EUA o cabelo de Obama ficará ainda mais branco para que o Congresso Republicano recém eleito aprove o trato com os chineses.
Ainda que o argumento republicano de que “não adianta reduzir as emissões se os chineses também não reduzirem” esteja agora enfraquecido, ainda sobra o outro de que a redução de emissões irá levar a redução de empregos. Obama terá que provar que há suficientes empregos e atividade econômica na mudança da matriz energética norte americana.
O acordo também prepara o clima (não perdoem o trocadilho) para a reunião de 2015, em Paris, que pretende chegar a um acordo internacional de limitação de emissões com validade legal, já que o anterior de Kyoto foi um fracasso total, em parte pelo fato de não contar com a assinatura norte-americana.
Se este trato se mantiver pelo menos até o fim de 2015, há boas chances dele ter conseqüências positivas no encontro de Paris. Aliás, o timing foi perfeito para causar marola já no encontro do G20 deste fim de semana, que ocorre sob a batuta do retrógrado líder Tony Abbott. Ele que mereceu o bem humorado protesto de um grupo de australianos enfiando a cabeça na areia, pensava em desviar a atenção da reunião para longe das mudanças climáticas. O histórico aperto de mão de Obama e Jinping irá provavelmente frustrar as expectativas do líder.

Apesar do ceticismo que os anos trazem, não escapei de certa esperança ao ver 40% das emissões de carbono mundiais (China + EUA) concordarem em serem mais bonzinhos daqui por diante.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A propaganda mente

Se eu disser que o mundo da publicidade é mentiroso, é uma coisa. Como sempre, meus dois leitores vão aplaudir, outros poucos vão criticar. Quem sabe até ganhe um processo,  já aconteceu.
Outra coisa é o astro Jerry Seinfeld detonar com o mundo da publicidade na entrega do Clio, o Nobel da propaganda, tendo de platéia os maiores nomes mundiais da área.
“Penso que gastar sua vida tentando arrancar o dinheiro duramente ganho de gente inocente para comprar produtos e serviços inúteis, enganosos e de baixa qualidade é um excelente uso de sua energia.”
O texto brilhante toca em todas mazelas da propaganda, e recomendo você ler a íntegra dele em Português que coloquei abaixo.
Meu primeiro pensamento foi que Seinfeld estava jogando para a platéia, já que ganha muito anunciando cartões de crédito e automóveis, e não o faz exatamente para viver, pois seu antigo seriado Seinfeld ainda rende 32 milhões de dólares/ano. Uma quantia que deveria servir para pagar as contas e ser um pouco seletivo com as propostas de trabalho.
Mas logo depois me ocorreu que é muito mais importante ouvir isto de um “desertor” que da boca de um crítico de primeira hora.
Há alguns anos, por exemplo, Annie Leonard fez um pequeno e brilhante vídeo “A história das coisas”. Como quase tudo que é bom, teve pequena repercussão. É fácil “enquadrar” pessoas como ambientalistas radicais e rapidamente desconsiderar seu discurso. Ouve-se mais quando alguém crítica seu próprio meio de vida.
Talvez estejamos todos errados, Seinfeld, Leonard e eu também. Talvez as pessoas queiram, até precisem ser enganadas. Precisamos da ilusão de que bens materiais, caros ou baratos, possam trazer alguma felicidade porque é inaceitável a realidade que para manter seu sedentarismo e obesidade, um décimo da população está acabando com o planeta todo.
A insustentabilidade é gritante e pagaremos a conta seja com o aquecimento global seja com as multidões de infectados da África ou da Ásia que darão um fim, talvez nada digno, a este estilo de vida perdulário e bobo.

Mas você pode facilmente esquecer tudo isto alegando que sou um radical.

A íntegra do discurso de Seinfeld, em tradução rápida

Estou animado por ganhar isso. Este é o prêmio que dão quando eles não acham que você pode realmente ganhar um, mas acho que fiz um bom trabalho e parece ter sido por algum tempo, e é assim que eu ganhei.
Eu gostaria de agradecer a Ogilvy e Mather e American Express por colocar-me neste negócio. Essa foi a primeira vez que fiz isso. Gostaria de agradecer ao meu empresário George Shapiro, minha incrível esposa Jessica e Ammirati por me manter indo.
Adoro publicidade, porque eu amo mentir.
Na publicidade, tudo é do jeito que você gostaria que fosse. Eu não me importo que ele realmente não vai ser como quando eu realmente obtiver o produto que está sendo anunciado porque, entre ver o comercial e possuir a coisa, eu sou feliz, e isso é tudo que quero. Diga-me quão incrível a coisa vai ser. Eu amo isso.
Eu não preciso ser feliz o tempo todo. Eu só quero aproveitar o comercial. Eu só quero ter a coisa. Sabemos que o produto vai feder. Nós sabemos disso. Porque nós vivemos no mundo, e nós sabemos que tudo fede. Nós todos acreditamos, hei, talvez este não vá feder. Somos uma espécie esperançosa. Estúpida, mas esperançosa.
Mas estamos felizes naquele momento entre o comercial e a compra, e penso que gastar sua vida tentando arrancar o dinheiro duramente ganho de gente inocente para comprar produtos e serviços inúteis, enganosos e de baixa qualidade é um excelente uso de sua energia..
Porque um breve momento de felicidade é muito bom. Eu também acho que apenas se concentrar em ganhar dinheiro e comprar coisas estúpidas é um bom modo de vida. Acredito que o materialismo é injustiçado. Não é sobre a quantidade de dinheiro. Nada melhor do que uma caneta Bic, um Fusca, ou um par de calças Levi. Se as suas coisas não te fazem feliz, você não está tendo as coisas certas. Isso tudo vai estar no meu novo livro, Materialismo espiritual, que está em fase de planejamento neste momento.
Eu sempre quis ganhar um Clio. Eu não sei muito sobre ele, mas eu sei que é um bom prêmio, pois em 1991, eles erraram toda esta apresentação, e havia um monte de prêmios que sobraram, e todas essas pessoas de publicidade aqui subiram no palco e pegaram o seu.
Então, para mim isso significa alguma coisa. Isso realmente aconteceu, e é minha entrega favorita de prêmio porque foi muito honesto. As pessoas simplesmente disseram, eu quero um Clio caramba, e eles vieram pegar. E é por isso que estou feliz agora. Eu tenho o meu. Eu realmente não ganhei, mas eu o tenho. E amanhã não sei onde é que isto vai estar. Vai estar em algum lugar. Talvez eu esteja morto. Alguém vai ficar com ele ou vendê-lo ou jogá-lo fora. Isso é bom. Estou feliz agora. Da mesma forma que os executivos estavam em 1991, quando eles correram para esta palco e pegara os troféus que não eram deles. Mas isso melhorou suas carreiras falsas e vidas sem sentido.
Então, obrigado a todos por esta grande honra e toda a sua grande obra. Espero que isso te faça feliz como você me fez feliz por  cinco minutos da minha vida, que vai durar até eu chegar à beirada deste palco, e me ocorrer que tudo isso foi um monte de bobagens. Obrigado, e tenham uma excelente noite.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Mentiras modernas

A internet não inventou o texto mentiroso, só estimulou sua divulgação. Especialmente na área ambiental, que envolve muita paixão nos formatos de amor e ódio, a fraqueza humana termina colocando a vontade de convencer à frente do bom senso.
No entanto, o texto tendencioso sempre deixa rastros que muitas vezes são fáceis de perceber.
O rastro de mentira mais claro é se o autor agiria de acordo com o que diz. Por exemplo, quase todos textos sobre compostagem na internet foram escritos por pessoas que nunca cuidaram de uma pilha de composto. Os erros são visíveis.
Da mesma forma, são comuns os textos de gente dizendo que podemos tomar veneno. Um certo Walter Williams escreveu que você pode comer 900g de DDT por um ano e meio e que nada acontece. Ele se disporia a fazer isto ? Provavelmente não, porque ele próprio sabe que sua fonte (o livro de um financista) é fraca.
A fonte importa muito. Outro dia em uma roda de amigos ouvi que a produção local de alimentos não reduz a emissão de carbono de acordo com um “estudo científico sério da Austrália”.
Se um não se dá ao trabalho de citar suas fontes, não pode querer ser ouvido a sério, mais ainda se fere o bom senso.
A citação do livro de Rachel Carson “A Primavera Silenciosa” serve como alerta vermelho. Suas inconsistências são muito usadas para acusar o ambientalismo como um todo. O livro foi escrito há mais de meio século e acertou de maneira ampla, ainda que tenha falhado em muitos detalhes, e evitou que  coisa pior acontecesse em um tempo em que se fazia aplicação de inseticidas carcinogênicos em bairros inteiros. Salmos 137:9 diz que é feliz atirar os filhos contra as pedras. Seria razoável usar isto para atacar o catolicismo?
Desconfie quando a fonte não for clara, e desconfie quando for clara também. Um periódico cientifico é vacina contra erros crassos, mas é inacreditável o que um doutor e um computador são capazes de criar, mesmo com as melhores intenções.

Preste atenção porque somos agora responsáveis não só pelo que falamos, mas também pelo que divulgamos. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A ética e a água

O interior de São Paulo já foi chamado de a “Califórnia Brasileira”. Hoje esturricam ambas.
Gerir a água de maneira sustentável é complicado, porque ela é tão essencial quanto pesada. Sua geração e conservação estão dispersas em inúmeros riachos e nascentes e refletem a ancestral dificuldade de abrir mão de um pouco do seu para que todos tenham mais, tal como no milagre dos pães, que muitos interpretam como mover pessoas para que esvaziem os bolsos e encham a mesa comum.
A briga de foice no escuro começa na hora de decidir se a água irá para esta ou aquela finalidade. Também neste aspecto se igualam a Califórnia e o interior de São Paulo.
As complicações com a água se multiplicam para todo lado. Olhando para o norte, está faltando a língua de água vinda da Amazônia. Olhando para o planeta como um todo, quanto mais quente, menos água líquida e mais vapor, que não é muito útil. Olhando na direção da capital, ela precisa de cada vez mais água e iniciativas banais como guardar água da chuva são, ainda hoje, vistas como exotismos românticos descartados já nas primeiras etapas dos projetos arquitetônicos.
As perspectivas são ruins porque precisamos de pessoas que criem mais sombra de árvore, que cubram o solo, que obstruam a água morro abaixo, e nada disto é chique.
Aqui e ali há pequenos motivos para otimismo. A sujeira da cidade de São Paulo, que antes se extendia até Barra Bonita, a centenas de km, agora já não passa de cem km, mostrando o resultado de um esforço grande, porém invisível, de limitar o aporte de esgoto no rio símbolo daquele estado.
Também lá na Califórnia, o principal viveirista, John Duarte, está preocupado em criar novas variedades de frutíferas resistentes a salinidade e falta de água.
Nosso estado hídrico não é nada mais que uma expressão de nossa miséria ética e moral. Fico até feliz que não haja soluções tecnológicas para resolvermos o problema mantendo o atual estilo de vida. Senão for por vergonha, quem sabe por sede poderemos nos tornar seres humanos melhores.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Cuidar de si e do mundo

Compostar é transformar resíduos em matéria orgânica. Comecei a pensar nisto ainda nos bancos da escola de agronomia, quando aprendemos sobre tudo o que o húmus faz em um solo, e como a agricultura convencional não se preocupa muito com isto.
Uma semana depois de formado, minha primeira ação foi comprar um balde grande e começar a compostar os resíduos de casa.
Os anos e as pilhas de composto se passaram e fui aprendendo não só como compostar, mas também a entender o que se passa na cabeça das pessoas que compostam (e das que não compostam).
No começo de minha vida profissional tive que deixar a coisa um pouco de lado. Naquela época em Harvard não se falava em compostagem, e ainda hoje a coisa lá está mais para nojo que para realidade. Veja uma foto sobre a postura mais errada que você pode ter.
Mas voltando ao Brasil, comecei a compostar todo o lixo de meu apartamento na varanda e depois passei a compostar em escolas.
No começo achei que iria por a coisa para funcionar em uma escola para depois passar para outra. Nada disso. Escolas trocam seu pessoal a cada ano e portanto exigem um trabalho constante.
Também achei que fosse ensinar as escolas a compostar. Já na segunda escola mudamos radicalmente o modo de trabalhar e inventamos um protótipo de composteira onde o lixo não cheira de jeito algum, e foi a escola que me ensinou isto.
Foi também nas escolas que aprendi que a idéia de transformar lixo em adubo tem muito mais inimigos do que parece. São inimigos silenciosos, que agem à sorrelfa, escondidos até de suas próprias consciências.
- Sou super a favor de compostagem, mas... (e lá vem desculpa)
Uma década de compostagem em escolas me mostrou principalmente que a maior autoridade de uma pessoa é seu exemplo. Minha autoridade para dizer que qualquer um pode tratar seus resíduos em casa não vem de titulação acadêmica ou conceito subjetivo. Ela vem de ter feito isto. Se eu fiz, você também pode.

Compostar é, afinal, muito mais que produzir matéria orgânica. Compostar é uma metáfora poderosa acerca de cuidar de si próprio e do mundo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Minhocário ou Compostagem?

Termina hoje, dia 2 de agosto, o prazo dado pela lei 12305 de 2010 para que todos municípios brasileiros construam seus aterros sanitários.
Por isso é positiva, a priori, a iniciativa da cidade de São Paulo de distribuir vinte mil caixas plásticas para o uso de minhocas para transformar lixo doméstico em adubo orgânico é a única solução ambientalmente adequada para o problema.
A alternativa é bem intencionada mas tecnicamente inadequada.
Minhocas não comem todos resíduos. Não comem alimentos temperados, com óleo, cascas de frutas cítricas, de cebola. Colocando algumas destas sobras no substrato onde estão as minhocas, elas irão fugir por onde puderem e a decomposição para. A cada vez que elas fogem, é necessário conseguir novas minhocas para reiniciar o processo.
Igualmente, se as minhocas ficarem algum tempo sem comida, porque a família se ausentou, por exemplo, elas também morrem, obrigando mais uma vez, conseguir novo lote de minhocas.
Por estes dois fatores, a minhocultura é uma atividade que exige dedicação e conhecimento para que seja bem sucedida. É difícil encontrar uma família urbana com tal nível de abnegação.
Há uma outra alternativa, que deveria ser considerada pela Prefeitura de São Paulo.
Há milhares de anos microorganismos são utilizados para a decomposição de resíduos, ao redor do mundo, na Índia, China, Inglaterra durante a Idade Média.
Há quase uma década, alguns alunos universitários e professores do ciclo básico temos ajudado escolas e casas a compostar seus resíduos. adaptamos este conhecimento ancestral para a realidade atual.
A transformação de lixo em adubo deve ser simples e barata se quisermos que seja amplamente adotada. Qualquer caixa plástica de frutas se presta a receber todos resíduos orgânicos, incluindo resíduos animais, alimentos processados, salgados, com óleo, absolutamente todos resíduos que saem de uma cozinha. 
Nas escolas, as composteiras frequentemente têm sua adição de resíduos interrompida
Por uma década compostamos todos resíduos de cozinha em meu próprio apartamento. Neste tempo adaptamos a tecnologia para o ambiente doméstico urbano.

A sugestão para a Prefeitura de São Paulo, sem prejuízo da boa intenção edo idealismo, é necessário um pouco mais de experiência antes de iniciar um projeto em tão grande escala.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Bife perigoso

Nesta semana inauguramos o engenho de cana lá em casa, para alegria dos tomadores de garapa de cana cayena. Para mim é um jogo empatado, porque a energia que gasto naquela manivela é reposta imediatamente pelo copão de glucose integral, o que me colocou em pé de igualdade com os carnívoros do pleistoceno. Naquele tempo, quem quisesse comer carne tinha que correr um monte e não era na sombrinha do supermercado.
Hoje temos acesso fácil à carne e os prejuízos disto são ainda mais amplos que as doenças coronarianas e obesidade. A produção de carne é causa de impactos ambientais de natureza diversa em todo planeta, por causa dos subprodutos com má destinação, poluição de águas, emissão de metano no rúmen, gasto de energia para refrigeração e também pelo gasto calórico dos animais. No caso dos bovinos, de cada 100 calorias do material vegetal de que eles se alimentam, somente 3 viram carne.
Percebe como a Ásia conseguiu, por milênios, alimentar grandes populações sem torrar reservas geológicas de combustível fóssil? Só de reduzir a proporção de carne na dieta, já se reduz enormemente o impacto ambiental da produção de alimentos.
Historicamente, populações que enriquecem, passam da alimentação fibrosa, para as amiláceas e daí para os açucares e proteína animal. Como a população mundial está enriquecendo (além de estar crescendo), a perspectiva não é das melhores.
Talvez estejamos vivendo o início de uma mudança. O consumo de carne per capita não para de cair nos EUA desde 2007, após crescer por mais de um século, já tendo se reduzido em 12% neste período. É possível que as pessoas mais educadas estejam tentando um caminho mais saudável para si próprias ao reduzir a ingestão de calorias e de proteína animal. Os próximos anos mostrarão se a tendência se ampliará para outros cantos do mundo que já têm segurança alimentar.
Os ricos devem fazer isto não só para seu próprio bem, como também para contrabalançar o impacto iminente do enriquecimento de centenas de milhões de pessoas.

Este bife traz problemas não só para quem os come, como também para todos terráqueos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Aprendizes de feiticeiro

Na semana passada contamos como o glifosato, o mata-mato mais usado em todo mundo, repete a história dos inseticidas organoclorados, já banidos há décadas.
Os inseticidas neonicotinóides são mais uma variação sobre o mesmo tema; Quando inventados, prometem maravilhas, mas o tempo termina por mostrar seus problemas.
Desde sempre pequenos agricultores usam água de fumo para matar insetos. Daí nas décadas de 80 e 90 passamos a purificar os princípios ativos encontrados nestas infusões de tabaco para aumentar seu efeito. Como não existe almoço grátis, este trouxe efeitos colaterais.
A história contada até agora era que princípios ativos como acetamiprid,  clothianidin e imidacloprid eram quase que “naturais” porque foram copiados da natureza e têm efeito residual curto, mas esta história é enganosa, conforme mostrou um artigo publicado neste mês na revista Nature.
Na Holanda, áreas com mais de 20 nanogramas por litro de imidacloprid na água, sofreram redução de 3,5 porcento anuais na população de aves, sendo aqueles locais com maiores concentrações, também os mais afetados. Análises adicionais mostraram que esta tendência iniciou-se junto com o emprego de imidacloprid na Holanda, nos anos 90 (Imidacloprid é o inseticida mais amplamente usado no mundo atualmente).
Esta descoberta mostra que foi correta a medida da Comunidade Européia de banir o uso de alguns neonicotinóides em resposta ao colapso de colméias de abelhas em ocorrência ao redor do mundo, causado também pelo uso desta classe de inseticidas.
A possibilidade de usar uma varinha mágica e acabar com as pragas da agricultura (ou daninhas, ou doenças) é até atraente, mas nestes três casos, o dano causado pelo aprendiz de feiticeiro acabou sendo muito maior do que lidar com o problema como sempre fizemos; melhorar a nutrição das plantas, empregar variedades resistentes, alterar datas e modos de plantio.
Enfim, parece não haver escapatória ao bom e velho bom senso agronômico.

Glifosato; está claro ou precisa desenhar?

Pouca gente lê os artigos científicos que são a razão de viver de professores universitários e pós-graduandos de hoje em dia, mas há um trabalho que merece sua atenção porque alerta para uma substância muito usada na agricultura, cujos danos ocorrem a longo prazo.
A história não é de nenhuma forma nova. O Professor Otto Solbrig, meu orientador em Harvard, por exemplo, publicou seu primeiro artigo científico sobre a maravilha que iria ser a agricultura sem insetos que os organoclorados iriam possibilitar. Como os organoclorados causam benefícios a curto prazo (matam os insetos) e prejuízos a longo prazo (câncer em mamíferos), levou algum tempo para que as pessoas percebessem o problema. Naturalmente, os fabricantes não ajudaram muito para conhecer os problemas associados aos organoclorados.
Hoje os organoclorados estão banidos e esta história é passado. A substância da vez é um mata mato, ou herbicida como preferem os agrônomos.
O Glifosato é usado em todo o mundo, e recentemente a invenção de plantas como soja e milho que são resistentes a ele viabilizou sua aplicação após o plantio. Você deixa o mato crescer, porque poderá mata-lo mesmo com a cultura crescida, não é maravilhoso?
Seria, se a história parasse por aí. Em 2012 Gilles-Éric Séralini publicou o primeiro artigo que acompanhou ratos durante toda sua vida, comparando grupos que se alimentaram de milho R-tolerant NK603 9 (resistente a glifosato), assim como um grupo que bebeu água com 1ppm de glifosato, que equivale a colocar uma gota em 100 caixas de 1000l. Escrevi uma coluna sobre isto em setembro de 2012. A grande diferença deste estudo foi não parar depois de alguns meses, acompanhando os ratos por toda sua vida.
Vi que o artigo havia acertado na mosca quando li as criticas da Monsanto, descabidas tanto biológica quanto estatisticamente, apesar da altíssima qualificação de seus pesquisadores, e por isso fiquei muito surpreso quando o periódico “despublicou” o artigo em 2013, mas logo entendi quando descobri que o novo diretor da revista é ligado a Monsanto. “Despublicação” é para fraudes, e esta desconfiança não existe em relação a este artigo.

O último lance da novela é que o artigo passou por uma nova revisão por pares e foi “republicado” em outro periódico, Environmental Sciences Europe, que avaliou o artigo agora pela terceira vez, atestando que glifosato, mesmo em pequenas quantidades, e a variedade de milho geneticamente modificada R-tolerant NK603 perturbam o sistema endócrino de ratos, levando ao aumento de incidência de câncer. Está claro ou precisa desenhar?

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia Nacional do Egoísmo

Ah ! O dia do ambiente...
Sinto a sintonia espiritual ao redor do mundo. Fecho os olhos e em um segundo me conecto com um sem número de desperdiçadores de água, consumidores, ostentadores, proprietários de animais recreativos entre outras tantas tribos que neste 6/06 irão “fazer a sua parte”.
Irão ver a pecinha de teatro na escola, plantar arvorezinha, bater no peito e dizer que brasileiro é mal educado, joga lixo na rua.
Amanhã já haverá outra efeméride, e precisaremos colocar nossa cabeça no dia dos namorados, do cachorro, da internet, cada dia tem uma.
Um extraterrestre não entenderia porque temos tantos problemas ambientais se tanta gente fala a favor. Isto, porque extraterrestres, imagino, teriam dificuldade em captar este traço tão humano e tão sutil, a hipocrisia.
O modo mais fácil de livrar-se de alguma coisa é escolher um dia, dedicar-se um pouco para poder então esquecer no resto do ano.
Os ambientalistas que criam estas datas têm um trabalho enorme, e o fazem porque crêem que a divulgação, o espaço na mídia, será importante para a causa.
Talvez não tenhamos notado que há uma grande diferença entre a intenção real de contribuir e a conversa. A mídia fala muito sobre ambiente, mas os problemas só se resolvem quando algum tipo de interruptor (estaria fora da Terra, sob controle de algum extraterrestre?) liga e as pessoas passam a fazer mais que sua parte, fazem o que é necessário.
Talvez esteja errado, a maioria certa. Nesta semana, um dos maiores nomes da fotografia da natureza foi de ônibus caminhar na praia. Na volta, passou mal e ficou por uma hora sem atendimento diante de um Hospital do Coração. Estivesse a bordo de um carro, Luiz Cláudio Marigo provavelmente teria tido atendimento. Como usou transporte coletivo, mesmo tendo condições para usar o individual, o fotógrafo não foi considerado merecedor de atenção.
O recado do dia mundial do meio ambiente é para usar ônibus, mas o recado do dia 02 é que quem usa ônibus não é gente.
Otimisticamente, espero a criação do dia da ganância selvagem, da ostentação e do egoísmo. Quem sabe então o mundo será melhor nos outros 364 dias.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Passado, Futuro do Pretérito e Futuro do subjuntivo

Um dia, quando estiver velho o suficiente para não dever mais nada a ninguém, nem mesmo bom senso, estas colunas serão mais etéreas e me libertarei de fazer um intróito, desenvolvimento e conclusão.
Falarei então de coisas soltas, de por exemplo, como conheci o interior da Argentina na semana passada, e como a região me lembrou uma volta ao passado que fiz viajando ao interior do Paraguai. Nos anos 90 ainda se via por lá madeireiras em plena atividade. Recém chegado na UEL, enxerguei isto como uma visão do passado de uma Londrina que não conheci.
Já a província de Misiones, na Argentina, me pareceu agora uma visão do futuro, de como poderíamos ser se tivéssemos mantido mais de nossa floresta.
Nesta semana estou no interior de São Paulo, onde tudo mudou desde que deixou de ser minha casa.
Abrindo a janela do hotel no que já foi a pacata Rio Claro, lembrei-me de um sem número de cidades norte americanas, com hotéis diante da rodovia dupla ao lado das franquias de fast food e drogarias.
Escondido nas ruas secundárias estão os paralelepípedos polidos pelas ferraduras e rodas de metal e as casinhas antigas com a janela na calçada. Sempre que dá, as casas antigas dão lugar às novas, assim como também ocorreu no Norte do Paraná.
Em todo lugar, cremos que seria chique trocar o que nos é próprio por esta gosma arquitetônica internacional, igual em todo mundo, despersonalizada.

Qual será o custo ambiental de demolir tanta coisa e reconstruir ao gosto da época ? E para quê, exatamente?

Seria para que não viajemos, não saiamos de nossos sofás?

Voltando para casa, passei pelo Rio Tietê, lindo, gigante e limpo lá pelo meio do estado, e pensei que toda água que falta na Cantareira, sobra no Tietê. Não é ali que afinal termina toda água que é retirada dos mananciais ao redor de São Paulo, depois de uma rápida passagem por vasos sanitários, pias e chuveiros? Que vontade de voltar para minha casa, onde ao menos lá, não coopero para nenhuma dessas porcarias.