sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pode ser mais simples

Chegou na semana passada mais uma versão de um texto que tem flutuado bastante na internet, onde uma senhora idosa discursa para um caixa de supermercado como sua geração era mais preocupada com o ambiente. Se você quiser lê-lo na íntegra cliique aqui.
Além de alimentar um desnecessário conflito entre gerações, o texto não menciona o quanto que as pessoas reclamavam para, por exemplo, cortar a grama com um cortador movido a muque. De fato, éramos mais ambientalistas há 20 anos, mas por falta de opção. Quando passamos a poder jogar fora as embalagens ao invés de retorná-las, poucos, muito poucos de nós, não adotaram a novidade.
Me mostre uma pessoa que use hoje navalha, caneta tinteiro, fralda de pano e tenha uma TV do tamanho de um lenço e eu tiraria o chapéu.
Alguns antigos mantém hábitos positivos, por isso costumo chamar a sacola retornável de sacola da vovó, que é mais simpático e sedutor com os mais velhos, que costumam também ser os mais resistentes. Mas cá entre nós: A sua avó usa sacola retornável ?
Mais elaborado é o protesto de Joseph Herscher, com sua inacreditável máquina de virar páginas de jornal. A máquina é uma sucessão de bolinhas que rolam, objetos que caem e alavancas que após uma enorme e improvável sucessão de eventos termina por fazer a óbvia tarefa de virar uma página de jornal, veja o vídeo no you tube.
A geringonça, chamada de “ecomachine” é, segundo seu autor, um protesto contra tantas coisas desnecessariamente complexas ao nosso redor.
Em minha cidade, por exemplo, uma companhia de ônibus se vangloria de desliga-los nas paradas de estrada. Nos supermercados podemos comprar água do outro lado do mundo, mas em garrafas recicláveis. A Louis Vuitton vende sacolas de compras de centenas de dólares.
Já que temos, sem resultado, tentado toda sorte de reclamações, a estratégia de fazer uma caricatura pode ser a solução. Quem sabe ao termos nossos carros, computadores e máquinas de fazer suco ridicularizados, não percebamos quão ridículo é complicar para depois terminar o dia com mais uma complicação de correr, levantar peso e espichar-se para não sofrer um ataque cardíaco
Da mesma forma, estamos complicando nossas casas com toda sorte de parafernálias solares e esquecendo do básico, que é orientar a casa para entrar sol no inverno e ficar na sombra no verão. O que é primário tem que vir antes.
Os médicos parecem ir no mesmo caminho da caricatura. Nesta semana um deles se tornou uma celebridade ao perguntar se você consegue restringir seu sedentarismo a 23,5 horas por dia. É ainda melhor se você juntar sua necessidade de exercício com a redução das máquinas . Exercite-se indo a pé comprar verduras, por exemplo. E por favor: sem sacolas de centenas de dólares.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Provocação ou ignorância ?

Esta semana fui provocado pela frase “a ditadura de especialistas é um pesadelo que não queremos sonhar” impressa em mídia nacional.
Há tempos venho colecionando evidências que vivemos uma nova época medieval e a desvalorização do conhecimento é mais um item para minha lista.
Especialistas não são boa matéria prima para ditadores porque seguem o conhecimento científico, que nada mais é do que bom senso assentado em camadas por milênios. Especialistas seguem a evidência dos fatos e se permitem mudanças de rota, de pensamento. Lidam bem com a contradição e oposição.
Bons ditadores têm que ter um verniz fino de conhecimento bem enviesado, aplicado em tenra idade, e têm que conviver por longo tempo com seus iguais para que quando crescerem sejam capazes de seguir obsessivamente uma única verdade.
O exemplo mais próximo de especialista é o médico. Para os que acham que é “ditadura” seguir o que o médico diz, que experimentem a ignorância de não seguir.
Desde criança resistimos a seguir o caminho melhor, geralmente também o mais difícil. Meus alunos resistem ler, meu filho resiste segurar a mamadeira sozinho. Não os recrimino muito por isso, a preguiça é inerente à condição humana, mas os tento colocar no caminho que traga o melhor resultado, ainda que com um pouco mais de trabalho hoje. A expressão “ditadura dos especialistas” soa a ressentimento juvenil com o trabalho ou estudo, enfim, aquele caminho que todos sabemos que é certo, mas que é menos atraente no curto prazo.
A expressão ecoa também em nível internacional, onde muitos julgam que a ciência compete com a fé religiosa. A fé só compete com a ciência na cabeça dos cientificamente mal treinados, que olham para conclusões cientificas sem entendimento das camadas que as antecederam e por isso as igualam aos dogmas religiosos, com origem totalmente diversa, mas não menos valiosa.
Se queremos avançar em todas áreas do conhecimento humano, incluindo o ambiente, precisamos ouvir o que os especialistas têm a dizer. Não porque eles sejam ditadores que irão nos obrigar a um caminho inadequado, mas porque eles pensaram em determinada questão por mais tempo que nós. Nem tampouco devemos ouvi-los porque eles trazem dogmas indiscutíveis, mas principalmente porque vêm aprimorando suas idéias ao longo de milênios, tirando o joio e pondo o trigo geração após geração.
No paraíso, o manobrista é inglês, o garçom é francês, e o cozinheiro italiano. Cada especialista com sua função. No inferno, o manobrista é francês, o garçom italiano e o cozinheiro é inglês.
Trocando em miúdos, o sonho que a Senadora Kátia Abreu quer sonhar é com os especialistas quietos nas Universidades, os ruralistas mandando no país e a população pagando quieta a conta.
Há algo de muito errado quando um Senador da República menospreza a ciência em um jornal de circulação nacional.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Velhos Amigos

- Voce está de óculos ! disse ela, ainda acordando, entre uma tosse e outra.

- Já faz 25 anos...

- Você está diferente.

- Diferente, voce quer dizer velho e fraco ? levantando forte o braço dela.

- Nao, sua pegada ainda está boa, ainda que não tão animada quanto da última vez. Voce está, sei lá... meio professor. Pera lá, voce falou 25 anos ?? Onde estive todo este tempo ?

- No começo, na casa dos meus pais. Depois que ele ameaçou jogar você fora, te trouxe para Londrina. E percebendo que dormira por 25 anos, ela tossiu mais ainda.

Então é por isso que o capim está mais macio que aquele capim gordura de Mogi das Cruzes ?

É, aqui é assim, a terra é mais vermelha e o capim bem mais macio...

- E aquela que veio te chamar com o bebezinho no colo ? Meu Deus, voce tem um filho !! E morreu.

Na próxima arrancada ela veio de novo;

- Agora enfim nós vamos ter uma horta e um pomar orgânico e vamos cortar um mundo de capim para fazer composto ?

- Voce pegou a idéia. É exatamente isto, só que uma versão melhorada, 25 anos depois.

- Mas por que voce me largou por todo este tempo ?

- Uai, para fazer tudo isto que você está vendo, professor, terreno, casa terminando, filho etc disse eu orgulhoso.

- E esta gasolina com gosto de caipirinha, você misturou álcool? Continua o mesmo pão duro de sempre...

- É que agora toda gasolina é assim.

- Para que raios os humanos colocam álcool no combustível das pobres roçadeiras ?

- O combustível feito a partir de uma planta não lança carbono novo na atmos..

- Mas isto ainda tá assim ? Disse a velha senhora nipônica de 40 anos de idade (cada ano humano equivale a dois para as roçadeiras).

- E ficou ainda muito pior. Agüenta a gasolina com álcool que é por uma boa causa.

- Ops, uma jurubeba no meio do mato, deixa ela aí para os passarinhos. Disse eu, lembrando a amiga dos velhos hábitos.

- Pelo menos alguma coisa não mudou... Mas por que estamos deixando tanto capim nas touceiras, deste jeito na semana que vem já está grande de novo.

É para isto mesmo. Amanhã eu vou empilhar tudo isto para compostar e logo estaremos aqui de novo.

Escuta, e o codigo florestal como anda, aquele deputado moto serra já morreu ?

Olha, voce não vai querer saber sobre isto...

E assim começamos a cortar mato de um lado do terreno para fazer composto e acabar com o gramado do outro lado. Como isto vai se desdobrar em muitas outras histórias de compostagem de fraldas, covas, mudas, tratamento de esgoto e coleta de água da chuva, vamos começar um blog separado para não transformar nossa histórica coluna Ambiente por Inteiro em um Histórias da Chácara II, o que seria plágio do querido Domingos Pelegrini. Aguardem as novidades.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

COP: Perda de tempo

Na semana passada disse que não há mais o que falar sobre o código florestal e nesta digo que não há mais o que falar sobre s reuniões da ONU sobre o clima, todo novembro a mesma ladainha.

Veja minha coluna http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/2010/12/cop-soberba-e-preguica_02.html de exatos 365 dias atrás. Agora já são 17 reuniões sem nenhum resultado, tem até um gráfico interessante lá. Igualzinho, há um ano tentávamos fazer bonito lá fora enquanto ameaçamos anistiar desmatadores cá dentro.

A jornalista Afra Balazina está maldizendo Durban, COP e a ONU em seu facebook. Os que imaginam que falo mal por inveja de não estar em Durban, ESTÃO ABSOLUTAMENTE CERTOS ! Adoraria estar lá aprendendo em meio a ministros do ambiente e autoridades do mundo todo, mas isto não mudaria a falta de rumo do clima.

Adorei a pergunta do agudo repórter do Spiegel ao ministro alemão do ambiente:

- Vale a pena viajar até Durban ?

Ao que o ministro respondeu que este é nosso único fórum de discussão ambiental. Concordo. No entanto, “único” é diferente de “efetivo”, que é também diferente de ao menos valer o impacto ambiental causado.

Há até boas notícias vindas de Durban, como o novo imposto sobre carbono na Austrália

Já notou que as boas notícias ambientais vêm sempre de dentro dos países ?

Os países (ao menos os melhorzinhos) tem polícia e poder judiciário para ameaçar quem não cumpre a lei. Não existe poder de polícia para países que não cumprem acordos. Neste momento não existe nem acordo. Imagine um grupo de adolescentes sozinhos em uma ilha. Eles se viram sozinhos, formam gangues, talvez até façam mal uns aos outros. Quando eles concordarão em algumas regras básicas de convívio ? Quando amadurecerem, talvez. Os países talvez não amadureçam nunca, porque sua própria existência é errada.

Quando a terra era o bem mais importante, escolhemos o caminho de separar as pessoas em função dela. Se você nasceu ao norte do Rio Grande é norte-americano. Se nasceu ao sul é mexicano. Como a terra não é mais um bem tão valioso, talvez fosse o tempo de acabar com os países.

É uma boa idéia que não acontecerá porque sempre haverá um estoque interminável de doentes mentais querendo trocar seu limitado tempo de vida pelo poder.

Da mesma forma (e descendo ao universo de propostas factíveis) as reuniões da COP poderiam ser em vídeo conferência, com cada delegado em seu próprio país de origem falando em um anfiteatro com seus conterrâneos. Ganhariam representatividade e também grandes platéias se educariam sobre o funcionamento (e talvez também sobre o mau cheiro exalado) dos acordos internacionais.

Mas talvez também esta proposta não se torne realidade porque é muito mais chique dizer “Na última reunião da COP que fui, em...”

A composteira na varanda de meu apartamento faz mais bem para o mundo que a COP (e possivelmente menos mal para a Afra Balazina também).

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Código que ninguém entende

Não há nada mais o que falar sobre o Código Florestal. A ciência já se pronunciou sobre o problema da limitação de terras para produção agrícola. Não usamos nem a terra disponível. O cidadão saudável pode constatar com seus olhos em qualquer voltinha pela zona rural e os mais detalhistas podem ver os números aqui.

O mundo quer produtos mais saudáveis (assim como queria o fim do escravagismo no século 19), mas alguns produtores rurais –não todos, felizmente, ainda querem colher e vender hoje os recursos naturais de ontem e amanhã. A produção rural em oposição ao ambiente é uma jaboticaba criada pelos bisnetos dos senhores de escravos.

Ontem demos um importante passo aprovando as alterações do Código Florestal na Comissão de Meio Ambiente do Senado. Importante passo atrás, liberando geral para quem fez errado entre 1965 e 2008 e ainda criando a dificuldade de termos que demonstrar os desmatamentos anteriores a 2008. A Comissão de Meio Ambiente dividiu as APP ao meio, além de mudar a referência do ponto máximo das cheias para o nível médio. O “novo” Código só tem nova mesmo a idade. Em sua concepção, ele é cheio de reentrâncias e saliências para abrir rotas jurídicas de fuga para desmatadores, bem ao gosto da leis mais antigas.

E falando em Comissão de Meio Ambiente do Senado, não será fácil descobrir sua composição. Precisei ligar para conseguir o nome dos 16 Senadores que aprovaram isto. Houve um único voto contra, do Senador Randolfe Rodrigues. Entre os que votaram a favor, grandes proprietários de terras como Assis Gurgacz e Blairo Maggi (este como suplente e proponente de emendas).

Perceberam, aliás, como os ruralistas têm estado quietos recentemente ? Faz algum tempo que não recebo mensagens furiosas. Talvez um pouco de história recente explique o silêncio. Há exatos seis meses a Folha de São Paulo publicou “Dilma irrita-se com Código Florestal e promete veto”. Ontem, enquanto a Comissão de Ambiente aprovava o trem ruralista da alegria, a presidente discursava no Seminário de Comemoração de 60 anos da entidade e entoava os mantras ruralistas. O Brasil depende da agricultura, etc. Algo mudou nos bastidores (se é que já não esteve sempre assim).

Precisamos passar a tratar nossos produtores rurais como empresários de verdade. Precisamos levar a sério taxações, empréstimos, regulações ambientais e trabalhistas, como seus colegas industriais e comerciários já fazem há décadas. A agricultura é muito importante para ser mantida na forma de sesmarias.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Gramados

No tempo em que a terra era a única forma de riqueza, somente os muito muito ricos podiam dar-se ao luxo de ostentar uma terra usada para nada: o gramado. Nascido na nobreza inglesa em tempos feudais e trazido para os Estados Unidos ainda em tempos coloniais, os gramados tiveram enorme expansão nos anos 50, junto com as casas suburbanas. Encontrei uma estimativa da NASA que os gramados cobrem uma área três vezes superior a qualquer cultura irrigada nos EUA. Parece não haver estimativas com área com grama no Brasil.

Felizmente nossos gramados são tratados com menos obsessão que os norte-americanos, nos quais a quantidade de irrigação, agrotóxicos, fertilizantes e combustíveis fósseis consome quantidade de energia comparável com a cultura do milho, mas qual milionário quereria ter um milharal na frente de sua mansão ?

Conforme se cria uma classe média urbana nas cidades de médio porte brasileiras, estamos nos mudando para os subúrbios tal qual fizeram nossos irmãos do norte há meio século. Se é para seguir os passos alheios, devemos ao menos escolhê-los. Thomas Jefferson, por exemplo, propunha no século 18 uma nação feita por pequenas propriedades rurais independentes e autônomos ?

Os tataranetos dos donos de engenho acham feio cuidar do roçado, mas bonito cuidar dos arredores da casa grande. Cortar a grama é coisa de rico, cuidar de horta é para pobre. No entanto, somente quem semeou, regou e colheu pode ter absoluta certeza que comeu um produto orgânico.

Plantar oferece a colheita e cuidar do gramado oferece ostentação. A escolha é sua.

E esta escolha parece ter pouco a ver com estudo. Donos de gramado com mais estudo consomem mais agrotóxico em seus gramados, assim como aqueles que ganham mais, ou são mais velhos. Todas estas pessoas, em tese, deveriam estar menos interessadas em ostentar e mais em alimentar-se bem.

Há uma enorme fronteira agrícola a ser explorada dentro das cidades. Ela pode melhorar a qualidade de nossos alimentos, reduzir os custos ambientais com transporte e aumentar o uso de resíduos como fertilizantes para estes cultivos urbanos.

Assim como em todas outras causas e coisas ambientais, o exemplo é mais importante que a conversa. (E por falar em exemplo, a fazenda Monticello, de Thomas Jefferson, possui enorme área de gramado ao redor da sede). No mês passado iniciei a destruição de 2800m2 de gramado, para ver na prática quanta comida uma área pequena como esta pode produzir para uma família. Vocês lerão ainda muitas colunas sobre a “Fazenda Petrópolis”.

Algumas referencias interessantes para quem gostou do assunto:

Falk JH 1976 Energetics of a Suburban Lawn Ecosystem. Ecology 57:141-50

Milesi et al A STRATEGY FOR MAPPING AND MODELING THE ECOLOGICAL EFFECTS OF US LAWNS http://www.isprs.org/proceedings/XXXVI/8-W27/milesi.pdf

Robbins et al 2001 Lawns and toxins; An Ecology of the City Cities 18:369-80

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A última mulher

Não seria pelos artigos científicos que o jovem Epaminondas atingiria sua tão desejada imortalidade. A Academia de Letras não gostava de cientistas, por mais prolíficos que fossem. De toda forma, já há centenas de anos a Academia tinha deixado de ser a única alternativa para imortalidade.

Desde a publicação de Baker em 2011, que as sessões de terapia gênica para inibir os efeitos da proteína P16 ink4A viabilizaram a imortalidade. Sendo poucos os que podem pagar, o resto da população segue sua tendência de redução. Macau e Hong Kong já não existem desde 2100. A radiação atômica de Fukushima acelerou o fim destas ilhas pequenas e pouco prolíficas.

A imortalidade pela via de ter filhos é também difícil. As únicas mulheres que ainda os têm são as imortais. As outras preferem gastar seu tempo livre nos centros de terapia aquisitiva. Por pressões ambientalistas, desde 2090 os centros de terapia aquisitiva passaram todos a ter programas de reciclagem associados, onde o cliente imediatamente deposita os objetos comprados, processando-os de maneira ambientalmente limpa e isenta de impactos, podendo assim retornar imediatamente ao Trabalho.

Trabalho é o nome da companhia que sobrou da Joint Venture da Apple com a Google, Volkswagen, Alcoa e Nike, depois que já terem comprado todas as outras e também os países, especialmente estes uma barganha. Com suas dívidas enormes, eles custaram pouco e permitiram também o ganho adicional de reduzir gastos com o fim dos Departamentos Jurídicos. Além de suprir os centros de terapia aquisitiva, o Trabalho também gera lucros para seus donos pagarem o tratamento de imortalidade.

O sistema, no entanto, possui uma falha. Os mortais, além de sua óbvia finitude, também não se reproduzem. Está definhando até mesmo o gigantesco lugar que já se chamou Brasil. Em breve nascerá sua última mulher. Daqui a pouco tempo nascerá também a última chinesa. O Trabalho vem automatizando processos, mas sempre acaba precisando de alguém para apertar os botões. Mesmo a recém inventada máquina de apertar botões também precisa de alguém para acioná-la.

Tudo isso ficou menos importante quando aproximou-se uma mortal querendo praticar uma ancestral arte esquecida já há séculos, tal qual a falcoaria e a contação de histórias. Parecia que ela queria conversar.

Quereria ela acesso às valiosas doses de P16 ink4A restrict, o valiosíssimo tratamento gênico que Epa controlava em seu laboratório ? Ou quereria ela, além de conversar, praticar a ainda mais antiga arte do sexo ? O que será que uma das últimas mulheres da Terra queria com ele ?

Em 2200 os seres humanos já se livraram até da morte (ao menos alguns), mas ainda não dos mais antigos dilemas gregos.
Em meu blog http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/ estão os links para o artigo publicado pelo Professor Baker na revista Nature sobre o controle da ação da proteína P16 ink4A , assim como para a estimativa de quando nascerá a última mulher em diversos países.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O outro

Onde você estava ontem de manhã ?
Enquanto escrevo sua coluna da sexta, para mim ainda é quinta de manhã. Um dia daqueles que a gente se lembra para sempre.
Chova ou faça sol, colunistas têm que ter sua coluna pronta no prazo. Chamam deadline porque é a linha que voce morre se cruzá-la. Nesta quinta de manhã estou em um hospital aguardando um serzinho de oito meses fazer uma cirurgia no crânio. Sinceramente não vejo meio de produzir 2500 caracteres mais ou menos sensatos sobre ambiente, planeta ou congênere na deadline de muito logo mais.
Me ocorre agora as muitas vezes que falei mal de pessoas centradas no próprio umbigo enquanto o mundo desmorona. Desmatadores, fumantes, motoristas, mal-educados em geral, gente que joga lixo na rua, a lista é tão grande..., mas um tanto de individualismo me parece ótimo agora.
Quem sabe os altruístas se preocupam mais com os problemas do planeta somente porque têm menos problemas ?
Bombeiros, plantonistas de emergência e cirurgiões não costumam preocupar-se com os aspectos ambientais de seu trabalho. Aliás, espero muito que o cirurgião neste momento não esteja pensando no impacto ambiental de centros cirúrgicos.
Talvez haja muita gente por aí vivendo algum problema rotineiramente deste jeito e por isso não vejam muito sentido em coletar água da chuva ou compostar resíduos domésticos.
Sempre também falei mal, por exemplo, de gente que senta os filhos em balcões e mesas onde pessoas comem. Sempre me pareceu um recado do tipo “minha dor no braço é mais importante que sua higiene, sua saúde. Eis que ontem me peguei fazendo exatamente isto (mas logo me mudei para um canto). É meio egoísta mas o bebê fica próximo de você sem precisar segurar.
Muito mais do que a higiene terrestre, se alguém propusesse trocar o mundo inteiro, incluindo balcões, a capela sistina e a galinha pintadinha pelo serzinho de crânio aberto lá dentro, responderia... - Onde assina ?
É um paradoxo interessante trabalhar para um mundo melhor para nossos filhos e ao mesmo tempo dispor-se a trocá-lo por eles, mas por outro lado, que vale a própria vida sem um mundo para viver e descobrir ?
Depois de horas escrevendo o textinho meia boca desta semana, recebemos a notícia que tudo está bem.
- O que será que fazem com as fraldas no hospital ? Deixariam levar as fraldas sujas do meu serzinho para compostar em casa ?
Talvez o segredo dos ambientalistas seja enxergar seus próprios problemas menores que os do resto do mundo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

7 bi não é problema

Nesta semana nascerá o 7.000.000o habitante da Terra. Vivemos o maior crescimento populacional da história da espécie humana. Para chegar ao primeiro bilhão levamos toda a idade da Terra, depois em 123 anos chegamos a dois bilhões e agora crescemos mais 1 bilhão em 11 anos.

Neste mês vimos artigos do tipo “Iremos alimentar 10 bilhões de pessoas ?” ou “Planeta sedento”. Estou pouco preocupado com a quantidade de gente. Até digo quanto. Estou 7% preocupado com toda esta gente no planeta. 7% das pessoas contribuem para a metade do carbono do planeta. 500 milhões de pessoas causam um estrago igual aos outros 6,5 bilhões.

Este grupo tipicamente se reproduz pouco no sentido biológico aliás, já devem até estar diminuindo, como o planeta também estará em poucas décadas. Culturalmente no entanto, estes 500 milhões são o objeto de desejo do resto do planeta e se reproduzem a dar inveja em Xeque Árabe. Todos queremos ter carro(s), casa(s) com gramado e trabalhar em um escritório de vidro (o último sem plural, é claro).

Até agora não vi um artigo do tipo “Como motorizar um bilhão de pessoas” (talvez porque seja tão possível fazer quanto subir para baixo ou entrar para fora). Se as pessoas comessem, dormissem, vestissem e produzissem os resíduos resultantes disto e somente disto, poderíamos manter 13 bilhões de pessoas com os custos ambientais atuais.

No ano passado, a consultoria Britânica Trucost produziu um relatório para as Nações Unidas que mostra que a cada ano, 3000 empresas causam 2,15 trilhões de danos ambientais, isto sem considerar possíveis colapsos futuros.

Escolha você o sonho demográfico. Zerar o crescimento populacional da África ? Cortar pela metade o do Afeganistão ? Nada disto mudará o planeta. Aliás, não é a redução da natalidade que melhora a vida das pessoas. É a melhoria de vida e principalmente a melhoria da cabeça das pessoas que reduz a natalidade. Os 500 milhões de afluentes estarão fritos no dia que os bolsões de pobreza do planeta melhorarem de vida porque o planeta não será mais o seu Jardim privado do Éden.

O crescimento populacional não é o cerne do problema porque nele o individual não briga com o coletivo. Menos filhos é bom para as famílias e para o planeta. O problema está quando é necessário cercear o indivíduo em prol do bem comum. Algum dos 400 milhões aceita dirigir um carro de duas portas com vidro de manivela ? Não. Este é um carro chamado de entrada, análoga à porta de entrada dos vícios químicos.

7 bilhões não são problema. O problema são os 7% de viciados em recursos naturais.

Veja o relatório da Consultoria Britânica trucost em

http://www.unpri.org/files/6728_ES_report_environmental_externalities.pdf

E um gráfico interessante da população mundial ao longo da história em

http://en.wikipedia.org/wiki/File:World_population_growth_%28lin-log_scale%29.png

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Semana do Saco Cheio

Perdoem a expressão chula que não mais repetirei, mas este é o nome da semana que inclui o dia do professor. Uma tradição criada em escolas privadas há duas décadas, que o pacto da mediocridade (o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende e o dono da escola finge que paga), dispersou por toda educação brasileira.

A educação traz a ética, o conhecimento teórico e a estética para as pessoas valorizarem o ambiente em que vivem. Conforme se educam, os horizontes das pessoas passam do sorvete para a casa para a rua, a cidade, o mundo. Quando educadas, as pessoas se preocupam com o planeta onde vivem.

A semana do supracitado repleto é o reconhecimento da falência do ensino. Ao invés de tornar a educação interessante, educadores assumem, ao lado dos alunos, que a educação é chata. Inclua todos aí na lista de chatos: professores, pedagogos e reitores. O prédio da escola também é chato.

Emendemos de uma vez o Carnaval ao Dia da Bandeira, e aprenderemos ao acaso, enquanto os professores vão fazer coisa mais útil de suas vidas, plantar batatas, por exemplo.

Os alunos estão gastando mais tempo tomando cerveja e conversando nos corredores do que envolvidos com o processo educativo, enquanto professores se viram como podem em outras atividades para fechar o orçamento. Esta cena pode parecer saída de um filme de ficção para os não educadores. Na verdade nós já emendamos o Carnaval ao Dia da Bandeira.

Recebi muitas mensagens pelo dia dos professores, uma mistura de auto-ajuda com novela mexicana. Pareciam ser sobre algum hobby. Profissão é acerca de vender o único pão que se dispõe, e se a remuneração está ruim, a profissão está ruim. Não há aula possível quando o professor traz uma placa no pescoço dizendo “Sou um otário que trabalha por um salário menor do que qualquer um de vocês irá ganhar quando sair daqui”. A regra é válida para professores do ciclo básico, secundário e universitário. Seus alunos recém-formados ganham mais do que eles. A menos, é claro, aqueles que resolvem seguir a profissão dos seus mestres. Estes ganharão uma placa novinha em folha.

Não se pode admirar intelectualmente alguém que vende sua força de trabalho a preço de banana. Sem admiração não há educação e sem educação não há ambiente sadio.

Na área ambiental, por exemplo, as ONGS já aprenderam que podem contar com a mão de obra barata de professores-doutores. Elas ainda têm o desplante de chamar de “consultores” os escravos que usam para avaliar projetos, dar cursos e escrever artigos. Nenhum demérito com a causa das ONGS, legítimas em sua maioria. As ONGS usam um instrumento de coação para contar com o trabalho escravo dos professores. Muitas delas têm grandes projetos em seu portfólio. Ao servir de mão de obra escrava, os ingênuos professores crêem que irão participar da divisão do bolo. Santa ingenuidade. As ONGS são “hippies” na hora de pagar, mas yuppies na hora de receber.

Veja sua rua, sua cidade e seu país. Nosso ambiente está assim porque nossa educação enche o saco.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

No meio do furacão

A frase é meio exagerada, mas verdadeira – Criei-me no meio do furacão.

Sou Professor de Recursos Naturais para agrônomos há 20 anos. As coisas têm melhorado recentemente, mas sempre houve uma tensão inexplicável entre produtores e ambientalistas.

Já fui e voltei às profundezas do inferno de Dante atrás de entender porque ambientalistas, tão focados em nutrir plantas e bichos brigam com quem produz comida para gente e agricultores brigam com quem está preocupado com a sustentabilidade do seu negócio.

Ao longo dos anos a tensão tem diminuído na sala de aula, mas talvez até piorado fora dela, conforme a legislação ambiental vai saindo do papel. Por isso, fico entusiasmado quando vejo pontes sendo construídas. A palavra correta seria “emocionado”. Para mim é emocionante quando dois litigantes percebem uma solução conjunta para um problema.

Nos EUA, os incêndios florestais têm sido cada vez mais sérios pelas alterações climáticas e porque eles foram controlados nos anos 50 (a floresta de lá precisa ser queimada regularmente para evitar incêndios catastróficos para árvores e infra-estrutura). Eis que dois inimigos dos anos 90, um madeireiro (Dwaine Walker) e um ambientalista (Todd Shulke) resolveram unir forças para fazer uma exploração controlada da floresta, evitando os incêndios ao mesmo tempo que usam alguma madeira.

Já é complicado descobrir o aspecto técnico que favorece a construção da “ponte”, aquele lugar onde o rio é mais estreito. Muito mais complicado é conseguir que dois inimigos antigos percebam que estiveram enganados em sua rusga, e que sempre houve um caminho mais fácil.

Uma outra ponte é um artigo que saiu nesta semana na revista Nature :Solutions for a cultivated planet do qual vocês ouvirão falar muito. Jonathan Foley e mais um grande time de pesquisadores se debruçaram sobre dados globais e concluíram que para conseguirmos nutrir o bilhão de pessoas mal nutridas que ainda existe hoje e diminuir a demanda agrícola sobre os recursos naturais, precisamos parar de expandir a área agrícola, mas precisamos buscar nivelar a produção, que cria problemas por ser concentrada em algumas áreas e insuficiente em outras. Também precisamos buscar maior eficiência na agricultura e distribuição do alimento. Um componente importante disto é a mudança de nossa dieta. Você, que faz parte de uma elite que se informa lendo, faz também parte de um grupo para o qual a comida faz mais mal do que bem. Coma menos, com mais plantas e alimentos menos refinados e você fará em primeiro lugar bem para você, mas também para o resto do mundo.

Para evitar que alguém cite esta coluna indevidamente, deixo claro que em ecossistemas tropicais não é necessário fogo, porque temos chuvas constantes durante o ano e uma luxuriante microbiota que degrada a matéria orgânica.

Veja aqui o pequeno filme sobre o madeireiro e o ambientalista que perceberam que estão do mesmo lado da briga
http://tvuol.uol.com.br/permalink/?view/id=ambientalista-e-madeireiro-se-unem-para-salvar-mata-nos-eua-04024D183172D4892326/mediaId=12159105/date=2011-10-08&&list/type=user/codProfile=1hjuf7gjt6ko/

E veja aqui o artigo de Jonathan Foley;
http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature10452.html

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Virar o jogo ou jogar a toalha

Tenho viajado muito mais do que gostaria, e o jeito de defender parcialmente minha sanidade mental é adotar rituais.
Um dos que mais gosto é ler atentamente aquela bobajada presente em todo banheiro de hotel, sobre o consumo de água do planeta e a lavagem de toalhas. Se você é amigo da água do planeta, deixe a toalha em qualquer lugar (e o hotel economiza uma lavagem), se você é inimigo da água do planeta, jogue a toalha no chão tal qual um huno ensandecido.
A hotelaria e a construção civil tem dado passos espertos para ocupar o nicho de mercado do ambientalismo light e mimado das multidões que até acham a natureza bonitinha, mas não mexem seus nada light traseirinhos para coisa alguma.
São “grandes” mudanças instalar a torneirinha que desliga depois de alguns segundos ou o vaso sanitário com dois botões ?. Porque é “ambiental” não usar ar condicionado ? Os árabes faziam muito melhor há milhares de anos. Projetar sem refrigeração ou calefação no século 21 não é “ambiental” e muito menos novo. É somente sensato.
Para ser “chique” agora é necessário ter umas pinceladas ambientais, tal qual um acessório de marca. Um revestimento de madeira aqui, um certificado ambiental ali e voilá ! Aqui você pode tomar um café de 15 reais e comprar quinquilharias porque é ecológico.
Os ganhos marginais possíveis sem mudar nosso modo de vida levarão a mais do mesmo: Gastos crescentes de energia e recursos naturais.
A revolução necessária não é só possível, já está acontecendo.
Em Seattle, a Fundação Bullitt irá mudar-se para o primeiro prédio sem consumo de energia, água ou produção de resíduos, e não há nisto nenhuma tecnologia nova. A água virá da chuva, a energia virá de células fotovoltaicas que tomam todo o telhado do prédio, além de um enorme beiral que também protege o prédio do sol. As escadas, chamadas de “irresistíveis” foram feitas para desestimular o uso de elevadores e estimular a saúde não só do prédio, mas também das pessoas que vivem nele. A limpeza será feita de dia, para não gastar luz. A refrigeração no verão, assim como o aquecimento no inverno, será feito passando um fluxo de ar por tubos enterrados, já que o solo é quente no inverno e frio no verão.
É chegado o momento de nos interessarmos mais pelo consumo de recursos naturais dos prédios e menos com os certificados, acompanhados de seus vícios originais. O bolso que paga o certificado é o mesmo que constrói. Quem paga manda e quem recebe obedece.
Para virar o jogo, precisamos mais que torneiras com timer, madeira e certificado na parede, formas alternativas de jogar a toalha. Precisamos revolucionar os prédios onde vivemos.
Vejam alguns escritórios e casas realmente inovadores

Esta é uma casa bem pequena:
http://tortoiseshellhome.com

Esta, em forma de domo consome seis dolares de energia elétrica por mes, produzindo o resto:

http://www.sciencefriday.com/videos/watch/10407

Este é o novo escritório da fundação
Bullitt 
http://www.millerhull.com/html/inprogress/cascadiacenter.htm

sábado, 1 de outubro de 2011

Como não enterrar sua árvore

Tem aquele clichê que todos deveriam escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. É pouco. Para realizar-se, uma pessoa deveria plantar uma muda que vire uma árvore, escrever um livro que não encalhe e criar um filho que não se drogue.

Deixo os filhos e livros para outros colunistas mais entendidos.

Para começo de conversa, tente mudar a estratégia de anos passados, que afinal parece não estar funcionando. Plante uma árvore só se não puder cuidar de uma já crescida.

Comece escolhendo a espécie. Já ouço seu pensamento dizendo que vai plantar a mudinha que o cumpadi lhe deu, que está no jeito.

Não vou perder meu tempo discutindo agora. Plante qualquer porcaria, e daqui a dez anos corte e plante outra. Quem sabe daqui a 50 anos você tenha acertado.

Talvez.

Conheça como sua árvore vai estar em cinco ou dez anos para saber se ela é compatível com o local onde vai ser plantada.

Se você quer que a sua árvore cresça, abra uma cova onde entre o seu braço, não a sua mão, e quanto pior a terra, maior a cova. Você não precisa abrir a cova de uma vez. Abra em dois ou três dias. Sem problema. Mas não coloque sua preciosa muda numa cova rasa. Você vai estar tratando sua muda como um defunto ruim, e não tenha dúvida, ela se tornará um.

Não é novidade que o melhor adubo de todos está no lixo das nossas cozinhas. Pegue as cascas e sobras de comida e vá jogando na sua cova. Cubra com um pouco de terra a cada leva que for jogando, para evitar moscas. A cada chuva que cair, este material orgânico é lavado e esta água desce ainda mais para baixo da sua cova, ampliando o benefício da sua adubação. Quando esta mistura de cascas e terra estiver chegando perto da superfície, termine de encher com terra, espere uns dois meses e aí coloque sua muda.

Irrigue bastante sua muda. Esta muda vai agüentar agora pleno sol, e até adaptar-se é melhor ter bastante água a disposição. A água também ajuda a chegar a terra perto do torrão da muda.

A causa mais freqüente de morte de árvores urbanas é depredação. Em alguns lugares, uma estaca só dá conta. Para lugares mais barra-pesada, precisa de uma cerca. Eu já vi até uma caixa fechada, só com a parte de cima aberta, de onde dava para ver a mudinha, coitada, lá no fundo, no escuro. Não é o melhor lugar do mundo para ela, mas é melhor do que ser depredada por um transeunte babão.

Este é o básico. Se você quiser saber mais, venha para o Departamento de Agronomia da UEL ficar cinco anos com a gente, e de quebra você ainda ganha um diploma de Engenheiro Agrônomo, que, é um dos profissionais responsáveis por plantios em larga escala.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Resultado novo com idéias antigas


Minha semana foi só resíduos orgânicos. Longe de uma Bela M..., transformar resíduos em fertilizantes é uma idéia que me acompanha desde tenra idade, quando um professor de microbiologia me mostrou suas transparências que já eram antigas na década de 80.
Desde então tenho compostado toda sorte de resíduos nas situações mais variadas, e isto tem me divertido muito, talvez exatamente porque nunca fiz disto profissão. Mas nesta semana parece que não fiz outra coisa, a começar pelo livro Agricultores de Quarenta Séculos, de 1911, sobre a agricultura na China, Japão e Coréia.
Entre tantas curiosidades do começo do século, Professor King fala da extrema hospitalidade dos agricultores com os viajantes. Não por altruísmo, mas pelo egoísmo esperançoso que o viajante use o banheiro e assim adube o solo.
Todos conhecemos o desenrolar desta história. Os próprios agricultores chineses não compartilham meu fervor pela reciclagem de resíduos orgânicos e querem a todo custo ir para a cidade produzir quinquilharias desnecessárias. Não é que devamos viver como os agricultores do começo do século passado, mas usando as idéias que permitiram alimentar muita gente por quarenta séculos, teríamos condição de fazer muito melhor do temos feito.
Na aula de segunda feira, também sobre compostagem, um aluno me perguntou sobre os coliformes fecais na agricultura baseada em excrementos humanos. Coliformes são seres vivos como qualquer um de nós. Quando ele morrer (tanto o aluno quanto o coliforme), deixará de ser ele, para ter seus minerais incorporados no solo. Coliformes fecais são indicadores de lançamento de fezes. Eles indicam que há risco de transmissão de doenças, mas não são eternos. Se voce trata os resíduos adequadamente por meio de compostagem ou incorporação no solo longe da água, os coliformes vão aos poucos morrendo até desaparecerem.
Muito mais difícil é dar cabo dos coliformes depois de caírem na água. O vaso sanitário é uma maldita invenção da época vitoriana que nos tornou dependentes de diluir nossos resíduos em água potável, mas há ao menos uma pessoa no mundo que não contribui para esta poluição.  Todo o cocô do Pedrinho vai para a composteira de nosso apartamento, onde é degradado e depois de horas não existe mais, sem moscas ou cheiro.
Espero que este exemplo surta o mesmo resultado das velhas transparências do meu professor, para que no mundo do Pedrinho juntemos o melhor da modernidade com algumas idéias antigas que tornaram possível uma agricultura sustentável por 40 séculos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Era só fumaça no WTC ?

A queda das torres gêmeas afetou o mundo também em sua dimensão ambiental. Prédios de escritórios possuem grande quantidade de computadores, revestimentos de chão e paredes, vidros (aqueles prédios, especialmente) amianto, aço, madeira. Você mesmo pode ir aumentando a lista.

Mais que simplesmente cair, este coquetel de substâncias foi derretido com a incineração de 170.000 litros de querosene, aí pelos 300 graus. Incinerados, os plásticos liberam dioxinas e os metais derretem. Tudo isto foi conduzido para as traquéias e pulmões das pessoas através do pó de amianto. Seu pó muito fino não é filtrado pelas nossas narinas.

Este acidente criou substâncias químicas até então desconhecidas (na verdade continuam desconhecidas). Para piorar a situação, esta queima foi realizada junto com o concreto, o que implica que estes metais, dioxinas e amianto foram derretidos em pH de soda cáustica.

O mais próximo que chegamos disto é nas emissões vulcânicas, mas ao contrário do WTC, as emissões vulcânicas são ácidas. Nosso sistema respiratório reage bem aos gases ácidos, mas não reconhece os básicos, deixando-os passar. Os sintomas são tão claros que agora tem nome; “Tosse WTC.

Seguindo a regra de outros acidentes ambientais, o governo primeiro nega e depois sob pressão, confirma. Os informes da agência ambiental norte americana (EPA) foram vetados pela então consultora do Departamento de segurança nacional, Condoleza Rice, e mesmo aqueles divulgados na época foram posteriormente considerados, pelo próprio EPA como “sem fundamentação adequada”.

Em um terceiro momento, começa a guerra de estatísticas, quando os dados sofrem toda sorte de torturas até dizerem o que se deseja ouvir. Um artigo recente na prestigiosa revista científica Lancet de 3/09/2011 sugere que a taxa de mortes entre os voluntários do acidente seria menor entre os que trabalharam no salvamento e resgate (1%) que entre os que não trabalharam (2%). Um ponto positivo desta revista é explicitar as fontes de recurso. Entre outros, consta a secretaria de saúde da cidade de Nova York.

Aprendemos há mais de um século que as novas tecnologias trouxeram perigos sem cor, cheiro ou sabor (não é o caso da fumaça do WTC, que os sobreviventes dizem ser parecida com chupar uma moeda de cobre). No século 21 e em NY, ainda penduramos a conta da contaminação desconhecida na caderneta do cidadão inocente. Você paga quando quer algo, mas paga também quando não quer.

Seria bom se este acidente tivesse servido ao menos para percebermos quão pouco sabemos sobre o corpo humano, a natureza e como ambos interagem. Infelizmente é mais provável que toquemos nossa vida sem perceber as muitas torres gêmeas perto de nós.

Veja o resumo do artigo da Lancet neste link:

E o relatório do EPA:
http://www.epa.gov/oig/reports/2003/WTC_report_20030821.pdf

sábado, 10 de setembro de 2011

Parte do problema ou da solução ?

Plantas fazem fotossintese e com isso retiram carbono do ar para crescer. Para os desavisados, isto poderia resolver o problema. Uma árvore compensa a queima de centenas de litros de combustível ? Já fizemos esta conta aqui há meses . Trocando em miúdos precisaríamos de vários outros planetas florestados para que a conta fechasse, porque estamos queimando em cem anos um carbono que foi acumulado por centenas de milênios. 

Torramos desvairadamente uma poupança lentamente construída pelos nossos antepassados. Por lidar com plantas, a agricultura é freqüentemente lembrada como solução para o problema (desperdiçamos tempo escolhendo qual a melhor solução, quando na verdade precisamos de todas juntas para talvez resolve-lo). Poucos lembram que infelizmente, hoje em dia gasta-se muito combustível fóssil até para lidar com plantas. 

Aumentamos a eficiência energética da produção de alimentos quando deixamos de ser caçadores coletores. Afinal, deixamos de andar até a planta, para ter um monte delas próximas a nós. Mas desde então só fizemos aumentar o aporte de insumos na agricultura. Água, esterco, revolvimento de solo... Tudo é energia colocada na agricultura para mimar nossas plantas. O problema nem era tão sério em um mundo de 300 milhões de habitantes, mas agora com 7 bilhões e a possibilidade de carrear recursos de todo planeta (e também do passado, como o petróleo e outros recursos minerais), nossa agricultura é hoje muito mais parte do problema que da solução. 

Muitos produtos agrícolas nos dias de hoje consomem até dez vezes mais energia para serem produzidos que seu conteúdo, e isto ainda não é a história toda. Depois de produzido, o alimento é embalado, transportado, refrigerado e desperdiçado, tudo necessário para que possamos comer Camembert de lá ou Shitake de mais além. 

Se colocarmos nossa cabeça para funcionar, ao invés do avião, todas regiões brasileiras têm possibilidade de produzir uma alimentação digna ao longo do ano. Além de reduzir a pegada ecológica da agricultura, isto talvez trouxesse de volta alguma riqueza no contato entre estas culturas. É enfadonho andar milhares de Km para comer exatamente o que comemos em casa.

Como a agricultura tem uma pegada ecológica grande, as soluções ambientais baseadas nela não são de fato soluções. O plástico feito a partir de álcool, por exemplo, precisa de nitrato para adubar a cana, e nitrato demanda o bom e velho petróleo em sua produção, conforme me lembrou o amigo Fabio Yamashita, da UEL. 

Não há jeito de escapar da segunda lei da termodinâmica. Não há como gastar menos gastando mais. Não sairemos desta enquanto não fizermos mais com menos. Nenhuma indústria irá dizer para voce consuma menos, transporte menos, viva mais simples e menor. 

Ao fim e ao cabo, esta é a única solução.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O rodeio de Barretos é bárbaro !

O rodeio de Barretos é bárbaro !

Há seres humanos que só conseguem sentir empatia com o sofrimento dos filhos e parentes próximos. Há outros mais evoluídos que sofrem com a miséria dos conterrâneos ou até com a miséria de pessoas de outros países. Infelizmente, ainda poucos se movem com o sofrimento de animais, nossos parentes mais distantes.

No tempo em que éramos caçadores nas savanas africanas a habilidade de controlar animais devia ser muito importante. O fino verniz de civilização adquirido nos últimos milênios tornou antiquados costumes como escravizar seres humanos ou apedrejar adúlteros. Isto, para muitos de nós, não todos.

Como ainda há os incapazes de sentir empatia com o sofrimento alheio, é normal ainda priorizarem o lucro. Nero usou seres humanos como tochas para manter seu poder em Roma. Thomas Jefferson entre outros milhares lucraram com trabalho escravo (que aliás ainda existe em alguns locais tanto lá quanto aqui).

Agora um peão matou um bezerro, o que irá afinal suscitar uma discussão sobre a continuidade desta barbárie romana em pleno século XXI. Os organizadores da versão barretense da barbárie romana irão provavelmente repetir com o peão o que fazem rotineiramente com os animais, na tentativa de passar a imagem de “amigos dos animais”.

O peão que matou o bezerro é, sem querer, o mais empático em toda esta barbárie. Para este animal foi melhor morrer rápido que depois de anos de sofrimento.

Um dia seres humanos evitarão o sofrimento de animais, em especial por motivos fúteis como um rodeio. O peão que matou o bezerro está tão longe deste nível de civilização quanto os organizadores e todos que pagaram ingresso para entrar neste Coliseu do século 21.

Não chega a ser uma vergonha haver um pequeno grupo de pessoas querendo lucrar com o sofrimento animal (dados oficiais falam em 200 milhões de faturamento). Não há sociedade isenta de sadismo. O que surpreende é um público de quase um milhão de pessoas (incluindo sádicos de fato a alienados que não percebem a relação entre o show de música e a barbárie).

Em 2005 São Paulo já aprovou lei proibindo animais em rodeios, porém a Federação de Agricultura de São Paulo obteve liminar. Rita Lee chamou os organizadores de rodeios de bandidos. Ela está enganada. Bandido é aquele que o Sistema Judiciário reconhece como tal. Vendedores de cigarro não são bandidos. Vendedores de maconha são. Proprietários de circo que usem animais são bandidos. Organizadores de rodeio não são bandidos, assim como os proprietários de escravos do século 19.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Luz polui ?

A eletricidade é maravilhosa, mas a grande disponibilidade de luz é um
problema. Escrevo esta coluna em uma hora da madrugada em que animais sem
visão noturna, como eu, deveriam estar dormindo.
Iluminar a noite não é um problema só para a fisiologia humana. Como muitas
espécies dependem do escuro noturno para dormirem ou se orientarem o avanço
de nossas luzes vai bagunçando o mundo também neste aspecto.
O caso mais conhecido é o das espécies de praia, que usam uma luminosidade
remanescente no mar para se orientar. Com o continente ficando mais claro,
elas se dirigem para a terra ao invés do mar. Hotéis adoram iluminar a orla
marítima. Nos locais com desova de tartarugas, ao invés das tartaruguinhas
nadarem para o mar, elas viram comida de cachorro em terra.
Plataformas marítimas também causam grande dano para espécies migratórias,
que perdem sua orientação por causa das luzes. Neste caso o dano é aumentado
pelo isolamento destas plataformas em meio à escuridão. No Mar do Norte, a
Shell mudou a iluminação de suas plataformas de petróleo e conseguiu reduzir
o impacto nas aves migratórias. No Canadá o governo tem convencido
empresários a desligarem a iluminação dos prédios em época de migração de
aves. Desconheço iniciativa parecida em nossas águas e terras.
Nas cidades não há canto sem luz, e estes resíduos de luz são capazes até de
influenciar a dinâmica de lagos, impedindo que espécies de zooplancton
venham à superfície pastar algas. Você achou que os lagos urbanos eram
verdes e poluídos só porque recebem esgoto ? Eles também são verdes também
porque são iluminados.
A luz que escapa ao objetivo de iluminar e torna-se poluição é também uma
contribuição ao gasto desnecessário de energia.
Também para nós, a supressão do escuro noturno impede a produção normal de
melatonina, o que causa grande confusão em nosso metabolismo. Quarenta
trabalhadoras dinamarquesas ganharam uma causa em 2009 por terem contraído
câncer de seio em função de trabalho noturno.
Você deve preocupar-se com a luz noturna mesmo não sendo uma trabalhadora
noturna dinamarquesa porque o mesmo órgão cerebral que cuida do ciclo de
dia/noite, também em muitos animais cuida do desenvolvimento sexual e ciclos
de reprodução. Outro dia entrei em uma loja em que a iluminação parecia
inspirada naqueles estufas de secagem de pintura. Saí correndo. Se querem
que eu fique em uma loja em à noite , que a façam soturna. Aliás, não
deveria nem estar fora de casa à noite. Deveria estar em casa cuidando de
minha glândula pineal. Cuide dela e ela cuidará de você.
Não é a toa que o treinador Nuno Cobra gastou um livro inteiro para uma
única mensagem. Durma !
É, aliás o que já deveria estar fazendo há bastante tempo. Veja o resultado
de nossos pequenos desperdícios de luz as imagens em
http://www.nasa.gov/centers/goddard/news/topstory/2003/0815citylights.html .

domingo, 21 de agosto de 2011

Gastemos mais fósforo com o fósforo

Sem o elemento químico fósforo não existiria vida como a conhecemos. Ele é fundamental na decodificação da informação contida no DNA para o funcionamento de células, assim como a conservação e transferência de energia.
O que fizemos até agora foi aproveitar da vida fácil de pegar fósforo nas jazidas minerais e aplicar em grandes quantidades no solo. De lá, depois de uma breve passagem pelo trato digestivo humano, muitas vezes nem isso, ele tem terminado no único lugar em que pode causar problemas, em rios, córregos, lagos e no mar.
A época do fósforo fácil está acabando, assim como as jazidas. As maiores estão na China e EUA, mas a maior de todas está no Marrocos. Talvez depois de esgotadas as duas menores, o Marrocos seja a próxima Arábia Saudita do mundo, ditando os preços de um recurso fundamental para a agricultura desperdiçadora como a concebemos. Grave o nome Bou Craa. É de lá que vem boa parte do fósforo por trás da comida que brasileiros e indianos produzem. Os norte americanos e chineses conseguem manter-se com suas própria produção.
O pico da produção de fósforo deve acontecer em 2030. Os preços devem subir, mas pode ser antes. Em 2008 o preço do fosfato subiu oito vezes.
Assim como com todos outros recursos naturais, este não é um problema de fácil solução. De um lado precisamos de plantas eficientes no uso de fósforo e como não é rápido obtê-las, é bom começar rápido. Também é bom seguir o padrão nutricional japonês, pródigo em vegetais e parco em animais. Programas de reciclagem de matéria orgânica em escala também ajudam não só por reciclarem fósforo, mas também porque solos mais ricos em matéria orgânica irão usar melhor o fósforo disponível.
A outra vantagem de reciclar fósforo é que ao contrário de muitos outros recursos naturais, o fósforo reciclado é melhor que o retirado da jazida não só porque vem junto com matéria orgânica, mas também porque sua radioatividade é menor.
Não é muito divulgado o fato que as jazidas de fosfato estão associadas às de urânio. Uma fábrica de adubo fosfatado na Síria, por exemplo, está sendo monitorada de perto pelos israelenses, que crêem que ali também está sendo produzida matéria prima para bombas atômicas. Em uma jazida canadense o teor de urânio chega a 15%.
Portanto, a adubação repetida com adubos fosfatados é também um enriquecimento de solos agrícolas com urânio. Nestes solos são plantados os cereais, frutas e verduras que voce come, e onde também comem os bois que você come. A rocha fosfatada não é só matéria prima para adubos. A ração animal leva fósforo e bebidas carbonadas também. A indústria de bebidas monitora a quantidade de urânio em seus produtos ?

Esgotos de lá e de cá

Sempre resisto aos convites de comparar outros países com o Brasil porque eles têm outras histórias, outros lugares e outras pessoas e sempre acabamos concluindo serem tão diferentes que são mesmo incomparáveis.
Porém, nesta semana não resisti ao apelo quase que místico da matéria de Bruma Komarchesqui no Jornal de Londrina e a de Jim Dwyer no New York Times, ambas no mesmo 22/7 falando sobre os rios de suas cidades.
Em Londrina, um estudo de dois anos de duração, realizado em 35 pontos determinou que a qualidade da água em 17% deles era boa, sendo o resto de pouco a muito poluída.
Em Nova York a notícia era que uma bomba da estação de tratamento de esgoto pegou fogo obrigando o lançamento sem tratamento nos rios da cidade.
No caso norte americano foram colocados avisos sobre o comprometimento da balneabilidade. No caso brasileiro a suposta falta de balneabilidade é motivo para não fazer o tratamento terciário, que permitiria a própria balneabilidade. Eu explico. Há uma lei exigindo o tratamento terciário somente quando se usa a água para nadar. Estaria a lei e a Sanepar então sugerindo que para conseguirmos tratar nosso esgoto precisaríamos começar a nadar nos rios poluídos ?
Antes de cairmos no cliché que somos pobres tupiniquins incomparáveis com os ricos norte americanos, é bom lembrar que a rede de Londrina foi construída neste século, quando já se conhecia os problemas de unir águas pluviais e servidas na mesma tubulação (a estação de tratamento não dá conta do volume quando chove). O sistema de esgoto de Nova York tem mais de duzentos anos.
Neste fim de ano durante uma chuva em São Paulo vi um chafariz de água da chuva mistura com esgoto jorrando a dois metros de altura em uma boca de lobo. A pressão da água era tanta que jorrava pelas frestas da tampa de ferro. Não há estação de esgoto que consiga lidar com isto.
Assim como Londrina, Nova York também tem o seu “João das Águas”, nosso ongueiro com independência para falar o que deve ser falado. Lá ele se chama John Lipscomb e é responsável pelas amostras de água de um grupo chamado Riverkeeper, o acquametrópole de lá. No entanto, as semelhanças param por aí, porque Mr Lipscomb tem motivos para otimismo. Ele diz que a catástrofe novaiorquina servirá para mostrar como era a situação há quatro décadas, antes da construção da estação de tratamento que permitiu que os novaiorquinos usem suas águas
Já a situação de Londrina não muda há décadas. O IAP diz que a Sanepar não trata o esgoto e a Sanepar diz que o IAP não fiscaliza o lançamento de esgoto. Dizia um velho amigo velho que quando duas pessoas brigam, é comum estarem ambas corretas.

Depois do fim do mundo

Quais as perspectivas ambientais neste novo mundo com desespero em grandes
financeiras e em países sérios de ambos lados do Atlântico ? Mente quem disser que sabe.
A incerteza, ao menos a mais recente, é tão maior quanto mais dinheiro você tiver. Se você tem um empresa ou dinheiro na bolsa, está morrendo de medo. Se não tem emprego talvez nem tenha notado a turbulência.
O baque maior em quem tem mais, ao menos por enquanto não reverbera no andar de baixo, vai fortalecer o neo-frugalismo ou os recursos para ostentação estarão sempre garantidos ? Afinal, qual revista que voce acha que tem mais futuro: Vida Simples ou Forbes ?
Nestes três anos de crise tenho visto um frugalismo incipiente, muito restrito ainda ao ambiente natureba em que vivo. No geral ainda somos descendentes dos construtores de menires da Ilha de Páscoa ou totemistas da América do Norte, só que agora empilhamos papel pintado.
Tempos de crise não costumam ser o melhor momento para falar em ideais coletivos. Quando a coisa aperta, É cada um por si. Talvez, quem sabe, tanta insegurança financeira faça os 6 % da população mundial que emitem a metade do carbono pensarem para quê mesmo estão fazendo isto. No entanto, também é possível que a insegurança aumente a necessidade de ostentar. Ambas são irmãs.
Durante a primeira fase desta crise, ainda havia quem acreditasse que os EUA criariam uma nova economia com os chamados empregos verdes. Apesar dos vários exemplos em que o grande irmão renasceu das cinzas, acho que desta não escapam, porque agora perderam o ideal coletivo. Aliás, o mesmo ideal coletivo que precisamos para tentar safar o planeta. Não parece que poderemos contar com a liderança dos EUA, tomados por lutas intestinas enquanto o império desmorona.
Por falar em queda de império, na Roma Antiga um colapso financeiro fez as pessoas desacreditarem do sistema e se voltarem para a Agricultura, o que ajudou a enterrá-los de vez, porque ninguém mais pagava imposto. Os imóveis para alugar e pessoas morando em carros e barracas me lembram o colapso romano, mas eles tinham a vantagem de uma comunicação mais lenta. O que vai ser de nós com todo o dinheiro do mundo em fundos gigantes capazes de mover-se à velocidade da luz ?
O dinheiro voador e descontrolado, rápido e especulativo costuma ter pouca preocupação com a qualidade da gestão das firmas em que investe e muito menos com aspectos ambientais de longo prazo. Há hoje sistemas de corretores de mercado realizando compras e vendas em milionésimos de segundo. Ou seja, neste período um investimento pode entrar e sair de um país. É tão rápido que não se pode ver, o que dirá perguntar de onde vem e para onde vão as matérias primas desta empresa ?
Minha salvação neste mundo novo vai ser como consultor sobre compostagem e coleta da água da chuva para gestores de fundos e corretores, pelo skype. Aceita-se galinhas como forma de pagamento.